Com 70% da população dependente do Sistema Único de Saúde (SUS) e a expectativa de vida aumentando a cada ano, o Brasil necessita de investimentos maciços nos próximos 14 anos para a melhoria dos produtos e equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos. Um conjunto de recomendações para garantir melhor atendimento ao cidadão brasileiro está reunido nas publicações "Panorama Setorial" e "Estudo Prospectivo – Equipamentos Médicos, Hospitalares e Odontológicos", da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). O volume apresenta o estudo prospectivo realizado em conjunto pelo governo brasileiro, pelo meio acadêmico, pela indústria e setores empresariais, sob a coordenação do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).
Do total de US$ 310 bilhões movimentados no ano passado em equipamentos e insumos, a participação do Brasil gira em torno de 1%. “É necessário aumentar a competitividade do setor no país para incrementar a produção e alcançar melhorias sociais no atendimento médico”, afirma Liliane Rank, assessora técnica do CGEE e coordenadora dos estudos prospectivos setoriais.
O estudo recomenda instalar centros de desenvolvimento para coordenar pesquisas de inovação tecnológica; acelerar o desenvolvimento das áreas mais deficientes, entre elas de hemodiálise e neonatal; potencializar a integração entre centros tecnológicos, empresas e indústria; reestruturar o sistema de certificação, registros de produtos e autorização de funcionamento de empresas; priorizar políticas e linhas de financiamentos para a inovação tecnológica, além de desenvolver uma política para equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos independente das mudanças políticas de governo.
O tema capacitação também é um dos destaques nas recomendações finais do estudo prospectivo, onde os especialistas propõem um conjunto de ações e instrumentos junto aos Ministérios do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC); da Saúde (MS); da Educação (MEC) e o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) para definir um plano estratégico de desenvolvimento, estrutura, formação e capacitação de talentos no setor.
A visão de futuro para o ano de 2023, construída para o setor durante o estudo, supõe que o Brasil terá até lá condições de alcançar, segundo o documento, reconhecimento internacional como produtor de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos de padrão tecnológico mundial. "Como o setor apresenta grande diversificação tecnológica e de produtos, foi preciso estabelecer segmentos prioritários para o Brasil antes de desenvolver as ações estratégicas”, diz Adriano Braun Galvão, assessor em estratégia e prospeção do CGEE e responsável técnico do estudo. Os segmentos selecionados foram: Imagens Médicas; Hemodiálise; Neonatal; e Equipamentos Medicos fundamentados em Óptica.
Equipamentos de Imagens Médicas, focando em Radiologia Digital e Ultra-Som, permitem obter exames fundamentais para o médico conhecer o quadro clínico do paciente, recorrendo, por exemplo, a radiografias, mamografias, ultrassonografias e ressonâncias magnéticas. Já os equipamentos fundamentados na óptica são essenciais tanto no diagnóstico quanto no monitoramento e tratamento de pacientes. Na odontologia, a óptica permite tratamentos a laser, enquanto nos hospitais sensores com fibras ópticas são aplicados em diagnósticos e cirurgias de alta precisão. O estudo também contempla as máquinas e filtros para o tratamento da hemodiálise e equipamentos para área de neonatal, com destaque para as incubadoras de recém nascidos.
Grandes números
Por trás de toda a tecnologia do setor existem cifras bilionárias. Em 2006, o mercado mundial de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos (EMHO) superou a marca de US$ 310 bilhões. Como comparação, o valor é mais que o triplo do faturamento no mesmo período da Petrobras, a maior empresa do país e uma das maiores corporações do mundo na área petrolífica.
Atualmente, os maiores produtores mundiais são Estados Unidos, Alemanha, Japão, França e China, sendo que as cerca de 20 multinacionais do setor concentram 70% do mercado global. O aumento de competitividade brasileira com o propósito de entrar nesse clube até 2023, de acordo com o documento, exige desenvolver o mercado local, melhorar a qualidade dos produtos nacionais, reforçar a infraestrutura física, investir na formação e capacitação de profissionais, além da preocupação em desenvolver um ambiente político e institucional propício à execução das políticas em longo prazo.
“A estratégia direcionada para o segmento de produtos de diagnóstico de imagem e de óptica inclui ações para desenvolver o mercado e reforçar a infraestrutura física (ex. laboratórios e organismos de certificação de software) e político-institucional”, explica Braun. Já a estratégia para a hemodiálise, segmento que custou cerca de US$ 2 bilhões para o Sistema Único de Saúde (SUS) em 2007, envolvem ações para reestruturar o segmento, atender a demanda crescente e desenvolver a competitividade. Para a área de neonatal, afirma o assessor, o estudo recomenda aprimorar a qualidade dos produtos e desenvolver o ambiente político e institucional, entre outras ações.
Educação e tecnologia
Entre desenvolver um modelo local de produção ou atrair multinacionais para se instalarem no país, Adriano relata que as duas alternativas foram consideradas igualmente importantes, dependendo do segmento. Como exemplo, ele cita as empresas de imagens médicas e ópticas no Brasil, que ocupam uma posição tecnológica ainda desfavorável em relação outros países. “Entretanto, o potencial de crescimento nos próximos 14 anos e a disponibilidade de pesquisadores no país justificam a proposição de rotas estratégicas voltadas para o desenvolvimento do mercado e, ao mesmo tempo, de equipamentos com padrões internacionais de qualidade”, afirma o assessor.
A rota tecnológica detalhada no estudo prospectivo para o equipamento de ultrassom, por exemplo, propõe o desenvolvimento incremental de um produto brasileiro. O desenvolvimento incremental trata-se de uma estratégia de planejamento do sistema em que diferentes partes são desenvolvidas em paralelo, e integradas quando completas.
O assessor menciona, ainda, a intensificação das estratégias de descentralização de grandes fabricantes, que instalam plantas em países mais atrativos para abastecer o mercado mundial. “Se o Brasil conseguir desenvolver bases sólidas de P&D nos segmentos detalhados no Estudo, o país pode vir a atrair investimentos dos grandes players”, afirma Adriano.
No capítulo reservado aos “Talentos”, ou recursos humanos, o estudo revela que essas bases sólidas de Pesquisa & Desenvolvimento no setor dependem de grandes investimentos em educação, formação e capacitação, com reflexos diretos nas rotas estratégicas. Na rota desenhada para diagnóstico de imagem e óptica, por exemplo, o documento indica a necessidade de “melhorar a qualificação dos profissionais de nível médio e superior para o segmento”, bem como “capacitar empresas para desenvolver equipamentos com padrões internacionais de qualidade”. Atualmente, a indústria brasileira produz uma variedade restrita de equipamentos, quase todos dotados de tecnologia importada e fabricados em empresas multinacionais.
A rota do segmento de hemodiálise, por sua vez, identifica a necessidade de “formar recursos humanos qualificados”, além de “implantar um centro de excelência em hemodiálise”. Também o segmento de neonatal pede ampliação e melhora da formação de talentos na área. “O risco de um apagão de mão-de-obra nesse setor ou, em outras palavras, da falta de pessoal especializado para trabalhar nos segmentos estratégicos do Estudo é alto e foi bastante discutido nas oficinas”, lembra Adriano.
Metodologia
Para desenvolver o estudo, o CGEE envolveu mais de 200 pessoas, entre pesquisadores, autoridades de diferentes esferas do governo, empresários e especialistas do setor de EMHO em um processo participativo. Todas as diretrizes foram discutidas e aprovadas pelo comitê gestor do estudo. O CGEE aplicou uma metodologia de estudos de futuro, adaptada às características do setor, envolvendo levantamento de bancos de dados, avaliação da cadeia produtiva e análises de tendências. A metodologia aplicada possibilitou traçar as rotas estratégicas e tecnológicas para o setor de EMHO até o ano de 2023. O Estudo recebeu acompanhamento técnico dos consultores Lester Amaral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro do comitê científico da Associação Brasileira da Industria de Artigos e Equipamentos Medicos, Odontologicos, Hospitalares e de Laboratorios (Abimo), e Renato Garcia Ojeda, do Instituto de Engenharia Biomédica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Comitê Gestor do estudo
Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratórios (Abimo)
Sindicato da Indústria de Artigos e Equipamentos Odontológicos, Médicos e Hospitalares do Estado de São Paulo (Sinaemo)
Baumer S.A.
Dabi Atlante Indústrias Médico Odontológicas Ltda.
Dixtal Biomédica Indústria e Comércio Ltda.
Fanem Ltda.
Labtest Diagnóstica S.A.
Shobell Industrial Ltda.
VMI Indústria e Comércio Ltda.
MDIC
BNDES
FINEP
SEBRAE
ANVISA
APEXBrasil
Ministério da Saúde
INMETRO
ABDI
CGEE