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Hidrogênio
Corte de investimentos em pesquisa de hidrogênio nos EUA gera estudo do
CGEE que avaliará impacto mundial da decisão do governo norte-americano


Em maio de 2009, quando o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) publicava um completo estudo sobre a Economia do Hidrogênio no Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciava um corte anual de US$ 100 milhões em investimentos no desenvolvimento de carros movidos a hidrogênio. A decisão do governo norte-americano, na avaliação do assessor do CGEE, Demétrio Filho, irá gerar impactos nas pesquisas do setor no mundo todo. “É difícil avaliar em um curto intervalo de tempo quais serão os impactos. A maior parte da pesquisa que está sendo realizada hoje é fruto de projetos que já estavam em andamento. Precisamos observar o que vai acontecer de agora em diante”, diz o especialista.

Embora o impacto seja concreto, o corte adotado pela administração Obama pouco influi nos resultados do estudo realizado pelo CGEE no Brasil, já que o horizonte contemplado pelos pesquisadores se estende até o ano de 2040. O documento, intitulado “Hidrogênio Energético – Cenário atual”, mapeia os investimentos na Economia do Hidrogênio no Brasil e no exterior, incluindo países como Japão, Rússia, Estados Unidos, China e Canadá, além de nações da União Europeia. O documento revela também as tendências tecnológicas e mercadológicas para o país pelos próximos 30 anos.

No início desta década, o CGEE já havia elaborado um estudo sobre células a combustível para o governo brasileiro, que naquele momento identificava a necessidade de definir sua estratégia de atuação para garantir o domínio de tecnologias capazes de introduzir novos paradigmas à geração de energia. De acordo com esse primeiro estudo, havia uma expectativa de investimento mundial de células a combustível da ordem de US$ 590 milhões em 2003, chegando a US$ 12 bilhões em 2011.

O documento propunha criar incentivos para a instalação de sistemas energéticos baseados em células a combustível. No entanto, a expectativa otimista do início da década para a entrada comercial desta fonte de energia, em um horizonte de tempo relativamente curto, vem se revelando incerto no contexto atual. A política do Brasil para transportes, por exemplo, está voltada para o biocombustível. “Mesmo assim, o país já avalia o carro elétrico e o híbrido, este último uma realidade nas ruas da Europa e dos EUA”, afirma Ceres Cavalcanti, assessora do CGEE.

Impactos
O termo ‘Economia do Hidrogênio’ foi cunhado pelo economista norte-americano Jeremy Rifkin. Na sua obra “A Economia do Hidrogênio”, Rifkin prevê o surgimento de uma nova economia sustentada pelo hidrogênio, com potencial de transformar as instituições econômicas, políticas e sociais de todo o mundo, a exemplo do que fizeram o carvão e a máquina de vapor no início da Revolução Industrial.

Se por um lado o corte de investimentos adotado pela administração Obama poderá ter efeitos apenas a curto prazo, por outro, como os Estados Unidos ocupam uma posição de liderança global nas pesquisas do setor, o CGEE está desenvolvendo um novo estudo, chamado de "Hidrogênio II", cujo objetivo é justamente investigar o impacto da decisão do governo norte-americano. “Contrataremos notas técnicas de especialistas que irão relatar o que aconteceu nas principais feiras de hidrogênio e células a combustível em 2009, tanto nos EUA quanto na Ásia”, explica Demétrio Filho.

Segundo o assessor do CGEE, as feiras são um termômetro do ânimo das empresas em relação ao mercado. Por intermédio das notas técnicas será possível avaliar se houve uma contração ou uma expansão de lançamentos de novos equipamentos em 2009. “E, o que é mais importante, se houve uma queda no custo da energia produzida pelas células a combustível. O custo é, sem dúvida, o maior gargalo da entrada desta tecnologia no mercado”, diz Filho. A célula à combustível converte os elementos químicos hidrogênio e oxigênio em água, e gera eletricidade durante esse processo.

Prioridade
Nas suas explicações para o corte de US$ 100 milhões, o governo norte-americano alegou necessidade de priorizar soluções imediatas que melhorem a eficiência dos carros comercializados nos Estados Unidos. De acordo com o Departamento de Energia dos EUA, desenvolver uma tecnologia viável de célula de combustível implica em mudanças maciças na infraestrutura, incluindo novas estações de reabastecimento de hidrogênio e um sistema de encanamento para transporte do elemento. Para o governo Obama, a prioridade são os carros elétricos, e os carros movidos a hidrogênio serão realidade somente daqui a duas décadas.

Aqui no CGEE, o assessor Demétrio Filho desenvolve um raciocínio que referenda a posição dos Estados Unidos. Para ele, o que limita a entrada do hidrogênio no setor de transportes é justamente o custo. “Quando falo custo, não me refiro apenas ao preço do veículo. Penso no custo necessário para se montar toda a infraestrutura necessária para abastecê-los, inclusive como armazenar o hidrogênio nos postos de distribuição e nos veículos”, explica o assessor. “Aí temos o velho problema do ovo e da galinha. Se não existem carros movidos a hidrogênio, não se justifica montar uma infraestrutura de distribuição. Por outro lado, se não existe tal infraestrutura, os veículos não irão aparecer.”

Na visão do físico Demetrio Filho, os custos precisam cair para ficar claro que as duas partes do quebra-cabeça irão surgir simultaneamente. “É difícil prever quando a transição ocorrerá”.

Pré-sal
Outro fator que poderá alterar o curso das pesquisas em Economia do Hidrogênio no Brasil será a produtividade dos campos petrolíferos da camada pré-sal nos próximos anos. Atualmente, quase toda a produção de hidrogênio é destinada ao refino de petróleo. Assim, o aumento da extração do mineral acarretará maior produtividade de hidrogênio.

Já com relação ao uso do hidrogênio como fonte de energia automotiva e estacionária, o assessor do CGEE reitera que os maiores gargalos são o custo do KW/h gerado pelas células estacionárias e a distribuição e armazenamento do elemento hidrogênio nos veículos. São chamadas de células a combustível estacionárias as células eletroquímicas, que atuam praticamente como uma bateria que consome determinado combustível e libera energia. Os reagentes mais comuns usados nessas células são o hidrogênio e o oxigênio.

“Mesmo que tivéssemos hidrogênio gratuito, o custo do KW/h produzido por uma célula a combustível ainda seria muito mais caro que o que pagamos atualmente às empresas fornecedoras de energia, devido ao preço do equipamento (célula a combustível) e de sua manutenção”, explica Demétrio Filho, comparando os custos da energia do hidrogênio ao custo atual da energia obtida por intermédio de combustíveis fósseis, biocombustíveis e fontes hidrelétricas, por exemplo. O estudo “Hidrogênio II” está previsto para ser concluído em março de 2010.


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