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SBPC debate a importância da divulgação científica

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SBPC debate a importância da divulgação científica

A importância da divulgação científica para a definição de políticas públicas e a elaboração de estratégias para ampliar essa divulgação em um cenário de consumo crescente de informação por mídias sociais foram temas abordados na mesa-redonda “Percepção Pública da C&T no Brasil”, realizada nesta segunda-feira (8), no campus da Universidade Federal do Pará, em Belém, dentro da programação da 76ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O debate foi coordenado pelo diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Anderson Gomes. A mesa foi composta por Yurij Castelfranchi (UFMG), Luisa Massarani (FIOCRUZ), Thaiane Moreira (UFF) e Ildeu de Castro Moreira (SBPC/UFRJ). Os painéis apresentados tiveram como base a pesquisa “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil 2023", feita pelo CGEE, por demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O estudo integra uma série iniciada em 1987.

O levantamento revela que a visão positiva que a sociedade brasileira tem sobre a ciência e a tecnologia se mantém, apesar da queda de 6,1% entre 2019 e 2023. No ano de 2023, 66% dos entrevistados acham que C&T trazem só benefícios ou mais benefícios que malefícios para a sociedade. Os três temas de maior interesse dos brasileiros são medicina (78% muito interessados ou interessados), meio ambiente (76% muito interessados ou interessados) e religião (70% muito interessados ou interessados). Porém, apenas 11% dos entrevistados visitam ou participam de atividades em espaços de C&T. Zoológico, jardim botânico ou parque ambiental, biblioteca e feira de ciências são os locais mais frequentados.

A pesquisa pode ser acessada no link https://percepcao.cgee.org.br/estudo

Ao apresentar a metodologia adotada (entrevistas) e os principais dados do estudo, o coordenador do Observatório Interdisciplinar InCiTe, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Yurij Castelfranchi, destacou a necessidade de se avaliar a percepção da sociedade sobre questões relacionadas à investigação científica. “Desde o pós-guerra, esse tipo de pesquisa serve para avaliar o estado de saúde do sistema de tecnologia e foi usada em grandes crises, como o acidente nuclear de Chernobyl e a doença da vaca louca, trazendo grandes questionamentos para o funcionamento das instituições de pesquisa”, explica.

Segundo Castelfranchi, quando se analisa a percepção pública, é possível pontuar a mudança de comportamento dos entrevistados em relação a notícias falsas sobre temas atuais, como a crise ambiental. “Há grupos de pessoas que dizem que as mudanças climáticas não existem. As que menos checam essas informações são aquelas que realmente acreditam nisso. E não depende tanto do grau de escolaridade. A desinformação não é feita para vitimar ignorantes, mas grupos com valores sociais específicos”, afirma o professor.

A pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Luisa Massarani, abordou em sua análise os assuntos de maior interesse apurados. “Caiu o interesse pelo tema saúde, talvez pelo fim da pandemia de coronavírus”, informa Luisa, que destaca a capacidade de crítica do público. “As pessoas veem os aspectos positivos da ciência e tecnologia, mas também percebem que a ciência pode ser responsável pelos problemas climáticos, por exemplo”.

MÍDIAS SOCIAIS E IMPRENSA

Em sua fala, a professora da Universidade Federal Fluminense, Thaiane Moreira, apresentou o estudo “A Ciência em diferentes arenas: análise dos discursos midiáticos na imprensa profissional e nas mídias sociais”. Foram analisadas 786 reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo publicadas entre 2022 e 2023. No caso das mídias sociais, foram observados 320 perfis e 320 canais autores de conteúdos no Instagram e no Youtube.

Segundo Thaiane, tanto a imprensa tradicional quanto as redes sociais reduzem o debate sobre ciência a poucas áreas do conhecimento. No caso dos jornais, há concentração em temas como Ciências da Saúde, Ciências Exatas e da Terra, com predominância de fontes masculinas (72%) e de instituições dos Estados Unidos (37,7% das organizações citadas). Já as mídias sociais focam em temas como políticas de Ciência e Tecnologia e áreas como Ciências Exatas e da Terra.

"Nas redes sociais, a análise mostra que a ciência é instrumentalizada para fins comerciais”, comenta a professora da UFF. “Os conteúdos sobre ciência nas redes sociais se caracterizam ainda pelo apelo ao curioso, inesperado e bizarro, e há disseminação de conteúdos que questionam teorias científicas ou propagam práticas ou crenças que não são respaldadas pelo método científico”, apresentou Tahiane.

Presidente de honra da SPBC, Ildeu Moreira destacou a necessidade de utilizar os dados das pesquisas de percepção pública para definição de políticas setoriais. “Essas pesquisas são bancadas com recursos públicos. Precisamos pensar estratégias para convencer os gestores a usarem isso na educação científica”, disse o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “É muito baixo o conhecimento sobre a ciência. A escola pública tem de discutir mais ciência, inclusive brasileira, e enfrentar de frente o problema”, concluiu.

Questionados pela plateia sobre como ampliar a divulgação da C&T no Brasil, diante do quadro apresentado, os debatedores sugeriram alternativas tais como a criação de uma rede de pensadores em que as universidades incentivem os jovens e os estudantes a fazerem divulgação de qualidade, como forma de ir além do aspecto institucional. Outra sugestão foi a de oferecer disciplinas optativas sobre divulgação cientifica em todas as áreas de conhecimento, com ênfase em mídias sociais.

Por fim, o coordenador Anderson Gomes pontuou a necessidade de se ampliar a utilização dos dados da pesquisa. “Foi uma mesa rica, com pessoas com larga experiência sobre o tema. Temos muitos dados, muitos indicadores. É o que chamo de olhar pelo retrovisor. Como utilizar esses indicadores foi a questão colocada não só pelo público, mas pelos debatedores, com sugestões e recomendações. O que fica claro é que precisamos agir”, avalia Gomes.

“Nós temos as informações e o problema equacionado, mas é preciso uma ação articulada do governo federal, com suas políticas públicas, e dos governos estaduais, com suas secretarias de educação. O ponto principal aqui é a apropriação de todos os indicadores e dados sobre a percepção publica pelos gestores de ciência e tecnologia para implantar essas demandas existentes e de fato tirar do papel e colocar na prática. Isso é uma decisão política, porque o conhecimento científico e como fazer já estão colocados”, finalizou o coordenador.

De 7 a 13 de julho de 2024, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Universidade Federal do Pará (UFPA) realizam, em Belém, a 76ª Reunião Anual da SBPC. O tema central desta edição é “Ciência para um futuro sustentável e inclusivo: por um novo contrato social com a natureza”.

 

Por Marcelo Fiuza 



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