Ciência Brasileira

Diretor do CGEE coordena Simpósio e Diplomação dos Afiliados da ABC NE&ES 2026-2030

Foto: Renner Boldrino/ABC

Na ocasião, foi realizada a sessão “Oceanos e zona costeira: conexões invisíveis na agenda climática”, que integra a série “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31”.

Diretor-presidente do CGEE, Anderson Gomes, coordenou o Simpósio e Diplomação dos Afiliados da ABC NE&ES 2026-2030. A programação foi realizada no dia 1º, no auditório da reitoria da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Criada pelo presidente Jacob Palis em 2007, a categoria de membros afiliados da ABC visa identificar, valorizar e aproximar da ABC jovens pesquisadores de grande potencial em todas as regiões do país, renovando os quadros da ABC e fortalecendo a presença da ciência brasileira em todo o território nacional.

Foram diplomados e apresentaram suas pesquisas os cientistas Aline Cavalcanti de Queiroz (Ufal, ciências da saúde), Claudener Souza Teixeira (Ufca, ciências biológicas), José Edson Sampaio (UFC, ciências matemáticas), Luiza Amim Mercante (Ufba, ciências químicas) e Sandeep Tiwari (Ufba, ciências biológicas)

Como vice-presidente da ABC Regional Norte, Anderson Gomes, abriu a sessão informando que seria realizada a sessão “Oceanos e zona costeira: conexões invisíveis na agenda climática”, que integra a série “COP30: balanço crítico e lições para a ciência brasileira rumo à COP31”, promovida pela ABC.

A presidente da ABC, Helena Bonciani Nader, cumprimentou os novos membros afiliados e falou sobre a tríplice responsabilidade, que no seu entender, eles passam a ter sobre os ombros.

A primeira é a responsabilidade com a integridade científica. “Vivemos uma era de ataques à verdade, uma era da desinformação. A ciência é a antítese do achismo. Ela se constrói com método, com dados reprodutíveis e com honestidade intelectual. Ao assumirem esse posto, vocês se tornam guardiões da ética em nossas universidades e institutos. A palavra de um cientista da ABC precisa ser sinônimo de confiança e retidão”, apontou Nader.

Segunda, a responsabilidade com a conduta ética. “Fazer científico não pode ser dissociado do fazer humano. Precisamos de uma ciência plural, diversa, que respeite os sujeitos de pesquisa, os biomas que estudamos e a sociedade que nos financia. Que a empatia e o respeito guiem cada experimento, cada artigo revisado e cada orientação dada a um jovem pesquisado”, ressaltou a biomédica.

E terceira, o papel social da ciência. “A ciência não pode ser uma torre de marfim. O Nordeste é uma região de potenciais imensos e de desafios históricos. A seca, a saúde pública, a desigualdade social e a preservação da nossa rica biodiversidade, que vai da caatinga à mata atlântica. E eles, todos, esse conjunto, precisam de soluções baseadas em evidências. “Vocês precisam dialogar com a realidade da nossa sociedade, com as periferias das capitais e com a força da nossa cultura. Vocês são a ponte entre o laboratório e a vida das pessoas.

Helena Nader finalizou afirmando que a ABC tem um compromisso com o desenvolvimento do Brasil. “Contem com esta casa, a nossa ABC, para apoiar seus projetos, ampliar suas redes e defender a liberdade, a soberania nacional, a democracia, o financiamento e a importância da ciência. E nós, da Academia, contamos com a vitalidade, a criatividade e a resiliência de vocês para que sigamos fortes. Sejam bem-vindos, que esse seja o início de uma trajetória brilhante de serviço à ciência e ao povo brasileiro.”

A pró-reitora de Pesquisa e Pós-Graduação (Propep) da Ufal Iraildes Pereira Assunção, elogiou a iniciativa da ABC de levar o evento para Alagoas, “porque mostra a importância da contribuição do Nordeste para a ciência e tecnologia brasileiras”. Parabenizou os jovens cientistas que seriam diplomados na ocasião, em especial Aline Queiroz, professora da Ufal, “cujo reconhecimento muito nos orgulha”. Iraildes também cumprimentou especialmente Claudener Teixeira, “amigo de longa data das lutas do Fórum de Pró-reitores de Pesquisa e Pós-graduação (Foprop). “É uma luta dura. Parabéns, porque além disso você é um grande cientista, e é por isso que está aqui hoje recebendo seu diploma.”

Meirejane Ataíde Remígio Costa, secretária de Estado da Ciência, da Tecnologia e da Inovação de Alagoas, declarou que é um ganho para o estado de Alagoas receber os jovens cientistas de excelência, mostra que o estado vem se destacando nas áreas de CTI.

O reitor da Ufal, Josealdo Tonholo, afirmou que tudo está mudando no mundo e no Brasil, e assim também vem mudando a ciência. “Ela era uma área da elite brasileira, concentrada no sul e sudeste, e passou a ser um desafio para todo o território nacional. E a região Nordeste abraçou essa causa e vem fazendo diferença nos últimos anos.

Tonholo afirmou que o Nordeste vem reduzindo as desigualdades sistematicamente, “embora saibamos que ainda falta muito para a necessária transformação por meio da educação e da ciência. Temos lidado com a diversidade o tempo todo, apesar das dificuldades. Mas continuamos comprometidos e fazendo a diferença.”

Ele considera que a eficácia da transformação se dá porque está acontecendo de forma conjunta, com o estado todo trabalhando de forma inteligente e pautada, e junto com os outros estados da região. “Estamos atuando com as universidades coirmãs, com os institutos federais, com o apoio das Faps da região. Está encarando a necessidade de se transformar com educação de qualidade, com ciência séria, com tecnologia que possa ser apropriada para a nossa gente. É isso que está fazendo a diferença.”

O reitor falou sobre o programa Capes Global – criado para fortalecer a internacionalização da pós-graduação e da pesquisa científica no Brasil por meio do trabalho em rede entre universidades -, no qual a Ufal integra dois dos 33 projetos aprovados. “Ele vem atender à demanda da Ufal e de outras universidades do NE em se reposicionar. A Ufal aprovou mais 14 cursos, temos 104, ficaremos com 118 cursos. Aumentamos a oferta em cerca de 13%, a maior parte dela no interior do estado”, apontou Tonholo. Ele explicou que o objetivo é trazer jovens da periferia para a Ufal, para o Instituto Federal. “Enfim, criamos oportunidades para que 590 jovens do Nordeste possam escolher a educação para transformar suas vidas. É pouco ainda? Sim. Mas estamos crescendo de forma sistêmica, sempre com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).”

Palestra magna: maracujá contra a diabetes e a zika

Antes de suas apresentações, os novos afiliados acompanharam a palestra magna da Acadêmica Marília Oliveira Fonseca Goulart, farmacêutica e doutora em química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e hoje professora da Ufal. Ela contou sua trajetória na biotecnologia, transformando produtos da vegetação nativa brasileira em óleos e extratos com aplicações na medicina e indústria.

Um exemplo é o maracujá, cuja semente foi utilizada para produzir óleos e extratos alcoólicos com características anti-inflamatórias e anti-oxidantes. Em seguida, essas propriedades foram testadas no tratamento da diabetes e até na proteção de fetos contra o vírus da zika. “Graças a uma equipe multidisciplinar de químicos, enfermeiros, médicos e biólogos, observamos que o extrato foi capaz de proteger células placentárias e diminuir a carga viral. Acreditamos que isso se dê graças à ação anti-oxidante, porque sabemos que, tanto na diabetes quanto na zika, há um estresse oxidativo que destrói células”, explicou.

Após os testes in vitro, o grupo seguiu para experimentos com o peixe-zebra, que comprovaram a não-toxicidade dos extratos. Agora, caminham para os ensaios pré-clínicos, antes de finalmente começarem os testes em humanos. Completar todo o caminho entre a bancada e a inovação não é fácil, mas é essencial para gerar produtos com qualidade atestada. Em Alagoas, Goulart faz parte da Rede Nordeste de Biotecnologia, que dá suporte nesse processo. “Na Rede existem projetos que usam feromônios naturais de insetos como defensivos agrícolas, rejeitos de camarão como fertilizantes e até uma biofábrica de corais para recuperar recifes”, conta a Acadêmica. “Sempre partimos de três perguntas: ‘Em que estágio está?’, ‘Qual problema resolve?’ e ‘qual o ganho econômico e ambiental’”, concluiu.

Conheça os novos membros afiliados mais de perto nos perfis a seguir:

Estudar é preciso
A professora da Ufal Aline Cavalcanti Queiroz dedica sua ciência à procura de novos medicamentos para tratamento de leishmaniose e câncer.

Desvendando a lógica química da vida
Professor da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Claudener Teixeira é especialista em lectinas, proteínas de grande potencial terapêutico.

Conciliando carreiras
Professor da UFC, o matemático José Edson Sampaio, especialista em Teoria das Singularidades, precisou conciliar estudo e trabalho desde a infância até a pós-graduação.

Uma certeza construída a partir da experiência
Química especializada em nanomateriais funcionais, a professora da UFBA Luiza Amim Mercante queria a indústria, mas se apaixonou pela academia ao longo do caminho.

Conhecimento para resolver problemas reais
Professor visitante da UFBA, Sandeep Tiwari desenvolve pesquisas em bioinformática para acelerar o desenvolvimento de soluções inovadoras em saúde.

Cerimônia de diplomação, boas-vindas e agradecimentos

Após a cerimônia de entrega dos diplomas aos novos membros, Marcio Henrique Batista da Silva (Ufal), membro afiliado eleito para o período 2023-2027, saudou os recém-chegados.  “Ao ingressar na ABC, vocês passam a representar também a força da ciência jovem produzida no Nordeste e Espírito Santo. Uma ciência que ainda enfrenta enormes dificuldades, mas que também reúne oportunidades extraordinárias, com instituições em crescimento e uma comunidade de pesquisadores cada vez mais sólida, qualificada e engajada”, destacou Marcio.

Ele ressaltou que nos próximos cinco anos o novo grupo de afiliados sentirá o quanto o título vai impactar nas suas carreiras, pois vão perceber o peso que tem o nome da Academia Brasileira de Ciências. “Ser eleito afiliado da ABC é uma chancela de mérito científico, concedida pelos próprios pares após uma seleção rigorosa, que pode abrir portas e impulsionar nossas trajetórias”, apontou o Acadêmico.

Na visão de Marcio Henrique, o que a ABC lhes oferece de mais valioso, vai além: os aproxima de um círculo científico extraordinário, tanto de outros afiliados de diferentes áreas e regiões do Brasil, como de membros titulares, muitos deles referências internacionais em suas áreas. Dessa rede surgem colaborações, projetos e amizades construídas em torno da ciência”, avaliou.

No entanto, para colher tudo que a Academia oferece, não basta ter o título, é preciso viver a Academia. Para Márcio, isso significa abrir espaços na rotina sempre apertada. “Vá aos eventos, participe das discussões, conheça pesquisadores de outras áreas, leve e traga propostas à Academia. Criem pontes, aproveitem esses cinco anos”, recomendo.

Ele destacou a participação na Reunião Magna, tradicionalmente realizada em maio, no Rio de Janeiro, e o Encontro Nacional de Membros Afiliados, que tem uma importância muito particular, a seu ver. “É a ocasião em que os afiliados de todo o país, de todas as áreas, se encontram e discutem questões de interesse de todos. Não percam. A 6ª edição será realizada esse ano, entre 25 e 27 de novembro, em Goiânia.”

A ABC mantém ainda uma agenda intensa de simpósios e debates, a maioria transmitida pelo YouTube da ABC, onde ficam gravados. “Acompanhar essas discussões nos ajuda a compreender melhor não apenas a nossa ciência, mas também o papel da ciência na sociedade brasileira”, disse Márcio Henrique Batista.

Por fim, sugeriu que os novos membros da ABC usem a visibilidade que receberam para abrir caminhos também para os outros e, sobretudo, levar para a região aquilo que a ABC pode nos proporcionar. “Que a presença de vcs na ABC ajude a construir em nossas universidades, institutos e centros de pesquisa ambientes cada vez mais estimulantes, colaborativos e comprometidos com a excelência. Que daqui a cinco anos, além dos resultados pessoais, tenhamos grupos mais fortes, novas colaborações, jovens pesquisadores inspirados e instituições melhores do que encontramos”, finalizou o Acadêmico.

O agradecimento em nome dos novos membros afiliados 2026-2030 foi feito por Aline Cavalcanti de Queiroz. “Agradecemos à ABC por nos abrir suas portas e agradecemos aos nossos pares, que enxergaram nosso trabalho, o reconheceram e nos elegeram, confiando em nossa trajetória”, iniciou Aline.

Para a Acadêmica, fazer ciência no Brasil, especialmente na região Nordeste e Espírito Santo, é um ato de paixão e resiliência. “Conhecemos bem os desafios de erguer laboratórios, formar equipes e produzir conhecimento de ponta, muitas vezes diante da escassez. Mas ninguém consegue isso sozinho. Sabemos que por trás de cada artigo publicado ou hipótese testada existem nossos heróis acadêmicos, mestres, orientadores e alunos. No cotidiano, temos nossos pais, parceiros, filhos, familiares, amigos. A eles, que compartilham nossas ausências, nossa ansiedade, nossa vibração em cada conquista, nosso mais profundo muito obrigada”, agradeceu.

“Essa chancela da ABC carrega um peso institucional transformador. Ela eleva nossa responsabilidade, fortalece nossos projetos e nos dá mais voz para disputar editais, formar redes de cooperação e liderar com mais vigor a pesquisa científica brasileira. Essa liderança precisa se traduzir em compromisso social”, apontou a pesquisadora.

Aline se referiu ao debate que antecedeu o simpósio e a diplomação dos afiliados. “Hoje tivemos aqui anteriormente um debate, que me pareceu uma excelente iniciativa da ABC, sobre o papel dos oceanos e das zonas costeiras na agenda climática, consolidando propostas que seguirão rumo à COP 31. Isso reafirma o verdadeiro papel da ciência: não ficar restrita às paredes da academia, mas ser farol para políticas públicas sustentáveis relativas ao meio ambiente, à saúde e à equidade socioeconômica.”

Como cientistas da região Nordeste e Espírito Santo, Aline Queiroz avaliou que o grupo tem o dever e o privilégio de mostrar a força, a diversidade e a excelência da pesquisa feita fora dos grandes eixos tradicionais. “Aos meus colegas afiliados, reitero que esse título não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida para uma missão. A honraria que recebemos hoje se converte num compromisso solene de servir à sociedade, honrar a tradição da ABC e inspirar as próximas gerações que nos sucederão”, finalizou.

Texto com informações da Academia Brasileira de Ciências (ABC)

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