Vinte e um projetos, uma mina, nenhuma refinaria

O Brasil chega a 2026 com o inventário de terras raras mais rico da sua história e sem a etapa que transforma minério em indústria. Este estudo parte do histórico das tentativas de refino, passa projeto por projeto pelo que existe hoje, mede o que os institutos nacionais conseguem fazer e em que escala, e compara o esforço brasileiro com o que a China gastou para chegar onde chegou.

Em janeiro de 1999, a unidade de tratamento químico de monazita implantada pela INB nas instalações desativadas da usina de urânio de Caldas, no sul de Minas Gerais, estava pronta para operar. Tinha processo validado em escala de demonstração, engenharia concluída no prazo e um custo que envergonharia qualquer projeto equivalente hoje: a escolha do sítio e da rota derrubou o investimento de R$ 16 milhões para cerca de R$ 2 milhões. Faltava a licença ambiental, que saiu em julho de 2004, com atraso de quase cinco anos e meio. Quando chegou, a equipe que desenvolvera o processo já se dispersara por aposentadoria, mudança de área ou de emprego, e os técnicos remanescentes vinham do urânio. A pré-operação foi tentada e não teve êxito.

Antes disso houve um apogeu real. Em 1949, a Orquima, fundada em São Paulo por um grupo de cientistas europeus refugiados do nazismo e liderado pelo professor Paul Krumholtz, passou a processar monazita na Usina Santo Amaro, com concentrado vindo de Buena, no norte fluminense, de Guarapari, no Espírito Santo, e de Cumuruxatiba, no sul da Bahia. Produzia compostos de terras raras, nitrato de tório e mischmetal em padrão tecnológico mundial, com pesquisa e desenvolvimento próprios e uma equipe que formou profissionais que estagiaram na Rhône-Poulenc, a Rhodia francesa. Durou onze anos. Em 1960, por causa do tório e do urânio contidos no resíduo do ataque químico, conhecido como Torta II, a empresa foi estatizada e absorvida pela estrutura nuclear, que virou Nuclebrás em 1974, Nuclemon em 1976 e INB em 1988. Dali em diante, terra rara deixou de ser objetivo e passou a ser o que sobrava do interesse pelo combustível nuclear.

A competência técnica ainda produziu um último resultado antes de sumir. A partir de 1990, em conjunto com o Instituto de Engenharia Nuclear, foi desenvolvido o processo de obtenção de óxidos individuais em alto grau de pureza, e entre novembro de 1993 e outubro de 1996 a Unidade de Demonstração de Extração por Solventes operou em Buena até que a tecnologia fosse considerada consolidada. Consolidada, no vocabulário da engenharia, significa que o passo seguinte seria a escala industrial. O passo seguinte não veio, e a partir daí o país acumulou planos em vez de plantas: o estudo do CGEE de 2013 já propunha financiamento para separação, rede nacional de pesquisa e formação de especialistas, tudo com início previsto para aquele ano.

O saldo de setenta e cinco anos cabe em uma frase do novo estudo do CGEE, elaborado por demanda do MCTI e publicado em 2026: o Brasil não dispõe de planta de separação de terras raras por extração por solventes em operação industrial. É esse o ponto de partida do que interessa agora, que é o presente.

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