O Brasil já demonstrou capacidade de desenvolver soluções, construir instituições e realizar projetos estratégicos. O desafio, agora, é ampliar essas conquistas e fazer com que seus resultados alcancem a maioria da população. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pelo cientista e professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cofundador do Porto Digital e do Cesar e Time Advisor da Lefil, Silvio Meira, na palestra magna do evento comemorativo dos 25 anos do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), realizado em Brasília.
Com o tema “O futuro que ainda não sabemos construir”, Meira apresentou reflexões sobre os desafios de formular uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil até 2051. A discussão parte de um documento-piloto que está sendo elaborado por ele e pelo diretor-presidente do CGEE, Anderson Gomes, intitulado “Brasil 2051: a grande estratégia para uma potência média num mundo em ruptura”.
Para o palestrante, estratégia é o processo que transforma aspirações em capacidades. Aplicada ao país, essa perspectiva exige considerar a diversidade de interesses, os diferentes atores sociais e os limites de atuação do Estado. Não se trata apenas de definir o que fazer, mas também de estabelecer prioridades e decidir o que não deve receber recursos e esforços.
Ao analisar a trajetória brasileira, Meira destacou avanços institucionais e iniciativas bem-sucedidas em áreas como agricultura, aviação, saúde e pesquisa. Citou experiências como a Embraer, a Embrapa, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Apesar dessas realizações, apontou a dificuldade histórica de transformar capacidades já desenvolvidas em ganhos mais amplos de produtividade e desenvolvimento econômico.
De acordo com o cientista, o país construiu ilhas de excelência, mas ainda enfrenta dificuldades para estabelecer conexões entre elas e disseminar conhecimento, tecnologias e soluções produtivas. Nesse contexto, ressaltou que o aumento da produtividade precisa estar associado à inclusão, à educação, à qualificação profissional, à formalização do trabalho e à melhoria das condições de vida.
Inteligência artificial, educação e produtividade
A inteligência artificial também ocupou lugar importante na apresentação. Meira observou que a tecnologia já proporciona ganhos expressivos em determinadas atividades, especialmente no desenvolvimento de software, mas alertou para a diferença entre melhorias pontuais e impactos efetivos sobre a produtividade da economia como um todo.
Entre os desafios apontados estão medir os resultados antes de estabelecer promessas, ampliar o acesso à tecnologia, fortalecer a infraestrutura nacional e desenvolver capacidade técnica para orientar decisões e regulações. O palestrante também chamou atenção para os impactos da inteligência artificial na formação profissional, especialmente nas oportunidades de ingresso de jovens no mercado de trabalho.
Na avaliação de Meira, educação, ciência, tecnologia e inovação são fundamentais para enfrentar problemas estruturais. Ele destacou a necessidade de ampliar a alfabetização, melhorar a aprendizagem em matemática e fortalecer a formação técnica, além de aproximar instituições de ensino, pesquisa e setor produtivo.
Uma estratégia com prioridades e capacidade de execução
Na parte de conclusão da palestra, Meira apresentou elementos de uma proposta de estratégia nacional estruturada em capacidades habilitadoras, missões e apostas de desenvolvimento. Entre as prioridades estão a formação de competências, a infraestrutura física e digital, a capacidade de atuação e avaliação do Estado, o financiamento de longo prazo, a segurança e o fortalecimento da ciência, tecnologia e inovação.
As missões propostas incluem ampliar a produtividade do trabalho, preparar as cidades para os impactos das mudanças climáticas, fortalecer a produção nacional de insumos estratégicos para a saúde e promover sistemas alimentares mais sustentáveis.
O cientista defendeu, ainda, que políticas públicas tenham objetivos claros, avaliação contínua e mecanismos para corrigir rumos ou encerrar iniciativas que não apresentem resultados. Para ele, a continuidade de uma política depende não apenas dos recursos destinados à sua execução, mas também da existência de atores e instituições comprometidos com os resultados alcançados.
Ao concluir, Meira reforçou que o Brasil não deve ser visto como um país incapaz de construir seu futuro. O desafio é aprender a disseminar suas realizações e transformar capacidades existentes em oportunidades para a maioria da população. “O Brasil sabe imaginar. A gente sabe construir. […] A gente precisa aprender é a difundir”, afirmou.
O evento “CGEE 25 anos: E se estivéssemos celebrando em 2051?” é uma realização do Centro, com patrocínio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, do governo federal.
Noticias relacionadas
CGEE celebra 25 anos e projeta o futuro da ciência, tecnologia e inovação no Brasil
5 de noviembre, 2026Cerimônia de abertura das comemorações reuniu autoridades e representantes do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para refletir sobre a trajetória do Centro e os desafios das próximas décadas.
Ministra destaca papel do CGEE no futuro da ciência nacional
5 de noviembre, 2026Em celebração aos 25 anos do Centro, Luciana Santos ressaltou a contribuição da instituição para o planejamento estratégico, a soberania tecnológica e a formulação de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação.
CGEE reúne especialistas para discutir o futuro do Brasil
3 de noviembre, 2026Com participação de especialistas de diferentes áreas, evento de 25 anos do Centro discutirá mudanças que podem redefinir o país, o futuro das instituições e as capacidades necessárias para antecipar transformações. Encontro tem patrocínio da Finep, inscrição gratuita e transmissão online.