Em um cenário global marcado por inteligência artificial, crise climática e desinformação, o Brasil revela dicotomias: a população confia na ciência, e seu principal acesso à informação ocorre por redes sociais, onde a circulação de notícias falsas é frequente.
Em um cenário global marcado por inteligência artificial, crise climática e desinformação, o Brasil revela dicotomias: a população confia na ciência, e seu principal acesso à informação ocorre por redes sociais, onde a circulação de notícias falsas é frequente.
A afirmação vem da última Pesquisa Percepção Pública da C&T 2023, realizada a cada três anos no Brasil pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), por demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com o objetivo de compreender como a sociedade pensa e consome temas relacionados à ciência e tecnologia (C&T).
Com abordagem socioeconômica o levantamento ouviu 1.931 pessoas com mais de 16 anos, analisando gênero, idade, escolaridade, renda e local de moradia em todas as regiões do país. O estudo mapeia percepções, hábitos, níveis de conhecimento e formas de acesso à informação científica.
Os dados mostram que, embora o interesse por ciência e tecnologia tenha apresentado leve queda de (62% em 2019 para 60% em 2023), a confiança na área permanece elevada. Em 2023, cerca de 66% dos entrevistados afirmaram que a ciência traz mais benefícios do que malefícios para a sociedade, mantendo uma visão predominantemente positiva sobre seu papel no desenvolvimento.
Ao mesmo tempo em que há confiança e interesse, as redes sociais se consolidaram como o principal meio de acesso à informação científica no país. E é nesse ambiente que se intensifica a exposição à desinformação.
A pesquisa também revela que cerca de 40% dos entrevistados só acreditam em uma informação quando ela é confirmada por outras fontes. Capítulo escrito por integrantes do OCTI/CGEE para o livro recém-lançado (Políticas Públicas Informadas por Evidências: conhecimentos, arranjos e capacidades para a governança democrática) a convite do IPEA, aponta que o julgamento público é fortemente atravessado pela racionalidade motivada e pela confiabilidade seletiva. Desse modo, laços afetivos e identitários moldam a percepção de veracidade: 42,3% dos brasileiros tendem a acreditar em conteúdos vindos de pessoas ou instituições que admiram, enquanto 45,6% desconfiam de informações associadas a fontes com as quais discordam. Esse cenário ilustra o padrão cognitivo da era da pós-verdade, onde o valor da informação muitas vezes se desloca da factualidade para a afinidade social.
O resultado é um ambiente informacional fragilizado. Metade da população brasileira (50,8%) afirma se deparar frequentemente com notícias que parecem falsas, evidenciando a magnitude do problema e o alcance das chamadas fake news.
Por outro lado, há um dado que aponta para uma consciência crítica em formação: 61,8% dos entrevistados afirmam que não compartilham informações sem verificar sua veracidade. Ainda assim, essa intenção não se traduz plenamente em prática, já que a checagem de informações continua sendo pouco frequente e fortemente condicionada por fatores como escolaridade, renda e localização geográfica (CGEE 2025), como revela a Pesquisa Percepção.
Esse quadro ganha novos contornos com o avanço recente da inteligência artificial. Tecnologias baseadas em IA, especialmente modelos generativos, ampliaram significativamente a capacidade de produção e disseminação de conteúdos, incluindo textos, imagens, vídeos e áudios sintéticos cada vez mais realistas.
Relatórios internacionais, como o Global Risks Report 2024 do Fórum Econômico Mundial, já apontam a desinformação impulsionada por IA como um dos principais riscos globais de curto prazo. Da mesma forma, estudos da UNESCO e da OCDE alertam para os desafios regulatórios e educacionais impostos por essas tecnologias, sobretudo no que se refere à confiabilidade da informação e à integridade do debate público.
Nesse contexto, os dados da pesquisa brasileira ganham ainda mais relevância. Eles indicam que o país tem alta confiança na ciência, forte dependência das redes sociais como fonte de informação e exposição significativa à desinformação. Com a intensificação do uso de inteligência artificial, esse cenário tende a se tornar ainda mais complexo.
Mais do que um diagnóstico, a pesquisa aponta para um desafio estratégico: fortalecer a comunicação pública da ciência, ampliar o acesso à informação qualificada e desenvolver competências críticas na população para lidar com o ambiente digital contemporâneo.
Em um mundo onde a informação circula em velocidade crescente, e nem sempre com qualidade, a confiança na ciência continua sendo um ativo importante. Mas, para que ela se traduza em decisões informadas e participação social qualificada, será necessário reduzir a distância entre acreditar na ciência e, de fato, compreendê-la.
Equipe Octi