Carro por aplicativo — Foto: Gustavo Azeredo
Em artigo publicado no O Globo, o diretor-presidente do CGEE, Anderson Gomes, articula a importância do domínio do sistema de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT), que torna viáveis serviços de telecomunicações, sistemas financeiros, agricultura de precisão, transporte aéreo, logística e energia.
Quando consultamos a localização no сеlular ou seguimos a rota de um aplicativo, raramente pensamos na infraestrutura que torna esses serviços possíveis. Menos evidente é sua importância para telecomunicações, sistemas financeiros, agricultura de precisão, transporte aéreo, logística e energia. Falamos de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT).
OGPS tornou-se sinônimo dessa tecnologia, mas é apenas um dos sistemas globais de navegação por satélite (GNSS, na sigla em inglês). Ele é controlado pelos Estados Unidos, assim como o Galileo pertence à União Europeia, o BeiDou à China e o Glonass à Rússia. Sem um sistema próprio, o Brasil depende de infraestruturas cuja operação, manutenção e governança são definidas fora do país.
O PNT, porém, é mais amplo. Permite determinar posições, orientar deslocamentos e distribuir referências de tempo precisas, indispensáveis para sincronizar redes, registrar transações financeiras e coordenar infraestruturas digitais. É uma infraestrutura invisível da economia digital. Isso coloca uma questão estratégica: até que ponto um país com a dimensão territorial do Brasil pode depender de sistemas controlados por outras nações? Não se trata de deixar de usá-los, mas de evitar que essa dependência se transforme em vulnerabilidade. Em setores críticos, falhas, interferências ou restrições de acesso podem produzir efeitos em cadeia. Por isso, o debate internacional envolve resiliência, diversidade de fontes e manutenção de serviços essenciais em situações adversas.
Construir capacidade nacional significa desenvolver uma arquitetura adequada às nossas necessidades, combinando sistemas globais com recursos espaciais e terrestres. Os sistemas tradicionais usam principalmente satélites em órbita média da Terra (MEO), mas cresce o interessepor constelações em órbita baixa (LEO). Mais próximas da superfície, elas podem oferecer sinais mais fortes e complementar a arquitetura existente, ampliando precisão e robustez. A missão Celeste, da Agência Espacial Europeia, já avalia uma camada LEO complementar ao Galileo e mostra que novas arquiteturas estão em teste.
Sem um sistema próprio, o Brasil depende de infraestruturas cuja operação, manutenção e governança são definidas fora. E essa ss perspectiva que orienta os estudos do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Por meio do Observatório de Tecnologias Espaciais, o Centro analisa alternativas para uma capacidade brasileira de PNT, incluindo uma solução regional apoiada em satélites de baixa órbita e integrada às infraestruturas existentes. Voltada às necessidades brasileiras e sul-americanas, ela permitiria uma estratégia compatível com nossas capacidades e demandas.
O desenvolvimento de uma capacidade nacional de PNT também pode mobilizar diferentes segmentos do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Essa cadeia envolve satélites, relógios de alta precisão, eletrônica, telecomunicações, software, cibersegurança e processamento de sinais, além de estimular a formação de competências em tecnologias críticas. Soberania tecnológica não significa produzir tudo internamente, mas dominar elementos essenciais e reduzir dependências capazes de comprometer funções estratégicas do país.
A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2034 reconhece osetor espacial como estratégico para a soberania brasileira. O CGEE passou a integrar o grupo técnico que contribuirá para o Plano de Ação para o Desenvolvimento e Operação do Sistema Nacional de PNT еe para sen modelo de governança. O desafio envolve implementação, financiamento, coordenação e continuidade. Infraestruturas dessa dimensão exigem visão de longo prazo e articulação entre governo, universidades, centros de pesquisa e empresas.
O Brasil possui competências científicas, experiência espacial, base industrial e aplicações que justificam esse esforço. Cabe agora transformar capacidades dispersas em estratégia e participar da construção das tecnologias da economia digital e espacial.
Anderson Gomes é presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para as regiões Nordeste e Espírito Santo.
Artigo originalmente publicado em O Globo.
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