Novo estudo do CGEE subsidia agenda estratégica do MCTI e propõe um mapa do caminho para transformar o potencial brasileiro em terras raras em capacidade industrial, tecnológica e geopolítica até 2040.
Como transformar potencial mineral em poder industrial e tecnológico?
Poucos temas ilustram tão bem esse desafio quanto as terras raras. Embora o Brasil reúna algumas das mais promissoras ocorrências desses minerais estratégicos, riqueza geológica, por si só, nunca garantiu desenvolvimento econômico. Ao longo da história, muitos países exportaram recursos naturais sem conseguir transformar essa vantagem em capacidade produtiva, inovação tecnológica ou protagonismo internacional. O verdadeiro desafio está em construir a ponte entre o subsolo e a economia do conhecimento.
É esse o ponto de partida da publicação Terras Raras no Brasil: Estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026–2040, elaborada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), por demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O estudo apresenta um diagnóstico atualizado do setor, analisa tendências internacionais e propõe um mapa estratégico para que o Brasil amplie sua participação em segmentos industriais e tecnológicos de maior valor agregado.
Mais do que analisar a cadeia das terras raras, a publicação busca responder a uma questão estratégica: como um país transforma recursos naturais em capacidades industriais, tecnológicas e geopolíticas.
As terras raras formam um grupo de elementos químicos essenciais para tecnologias que moldam a economia contemporânea. Estão presentes em veículos elétricos, turbinas eólicas, catalisadores, ligas metálicas, equipamentos médicos, dispositivos ópticos, eletrônicos avançados e sistemas de defesa. Apesar do nome, não são necessariamente raras do ponto de vista geológico. O que realmente é raro, e estratégico, é a capacidade de extraí-las, separá-las, processá-las e incorporá-las a produtos industriais de maior valor agregado.
Essa distinção é fundamental. Ter reservas minerais não significa dominar uma cadeia produtiva. Entre a jazida e o produto final existe um conjunto de etapas tecnológicas, industriais, regulatórias, ambientais e geopolíticas que determina quem captura valor, quem estabelece padrões e quem ocupa posições estratégicas nas cadeias globais de valor.
Nos últimos anos, a disputa por minerais críticos ganhou uma nova dimensão. A transição energética, a digitalização da economia e a reorganização das cadeias globais de suprimento transformaram as terras raras em um tema de segurança econômica, política industrial e soberania tecnológica. Países e blocos econômicos passaram a buscar fornecedores confiáveis, diversificar rotas de abastecimento e reduzir dependências em segmentos considerados estratégicos.
No Brasil, esse movimento também passou a orientar a agenda nacional de ciência, tecnologia e inovação. A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI 2024–2034) reconhece os minerais estratégicos e críticos como uma área prioritária para o desenvolvimento nacional. O documento destaca a necessidade de desenvolver tecnologias sustentáveis para exploração, beneficiamento e reaproveitamento desses minerais, fortalecer cadeias produtivas de maior valor agregado e reduzir vulnerabilidades externas associadas à transição energética e digital.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular. O País combina potencial geológico relevante, base científica instalada, tradição em mineração, capacidade industrial em setores específicos e presença diplomática em múltiplos fóruns internacionais. Transformar essas condições em vantagem competitiva, no entanto, exige coordenação, investimentos e uma estratégia de longo prazo.
Foi a partir desse desafio que o estudo do CGEE foi organizado em três blocos.
O primeiro, Fundamentos, apresenta o panorama internacional, identifica os principais atores globais, analisa tendências e constrói cenários para o horizonte 2026–2040. Seu objetivo é situar o Brasil em um ambiente marcado por competição tecnológica, reconfiguração das cadeias de suprimento e crescente valorização dos minerais críticos.
O segundo, Direcionadores, examina cinco cadeias produtivas priorizadas: ímãs permanentes, catalisadores, ligas metálicas, fósforos e materiais para aplicações ópticas avançadas. Antes delas, o estudo dedica atenção à sustentabilidade e à economia circular, reconhecendo que a competitividade futura do setor dependerá não apenas da eficiência econômica, mas também da responsabilidade ambiental e social.
O terceiro, Estratégia, apresenta o mapa do caminho proposto pelo estudo. A partir dos dois elos estruturantes da cadeia, mineração e refino, organiza oito eixos estratégicos, três horizontes temporais e seis famílias de instrumentos de política pública. A proposta é conectar objetivos nacionais, investimentos, governança, ciência, tecnologia, regulação e inserção internacional em uma estratégia de longo prazo.
A visão de futuro desenhada pela publicação projeta que, em 2040, o Brasil possa ser reconhecido internacionalmente como produtor soberano e responsável de terras raras pesadas, com capacidade instalada de separação química de elementos críticos e participação consolidada em segmentos industriais de maior valor agregado, como a fabricação de ímãs permanentes de NdFeB para mobilidade elétrica e energia renovável.
Essa ambição exige escolhas. O desenvolvimento da cadeia brasileira de terras raras não ocorrerá espontaneamente. Dependerá de políticas públicas consistentes, investimentos coordenados, fortalecimento da base científica e tecnológica, formação de competências industriais, governança estável e articulação entre Estado, empresas, universidades, centros de pesquisa e parceiros internacionais.
A publicação também chama atenção para o papel estratégico da Amazônia, cuja geologia de argilas de adsorção iônica ainda é em grande parte inexplorada. A região pode representar uma reserva de longo prazo para a posição brasileira no setor, desde que seu desenvolvimento seja orientado por critérios rigorosos de sustentabilidade, conhecimento científico e responsabilidade institucional.
Ao propor um mapa do caminho para 2026-2040, o estudo não oferece uma solução simples para um problema complexo. Seu principal mérito está em demonstrar que a riqueza mineral, por si só, não produz desenvolvimento. Entre a jazida e a liderança tecnológica existe uma cadeia de decisões envolvendo ciência, inovação, indústria, sustentabilidade, financiamento, diplomacia econômica e políticas públicas de longo prazo.
Em última análise, o desafio brasileiro não é apenas produzir terras raras. É produzir capacidades. O Brasil não está competindo por minérios; está competindo por posições na cadeia global de valor. Quem dominar conhecimento, processamento, manufatura e inovação capturará a maior parte da riqueza gerada por esses recursos estratégicos.
As reservas estão no subsolo. A vantagem competitiva será construída acima dele - nas instituições, nos laboratórios, nas fábricas, nas políticas públicas e na capacidade do País de transformar recursos naturais em inteligência, tecnologia e desenvolvimento.
Anderson S. L. Gomes
Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE)
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