Quando pensamos na infraestrutura de um país, imaginamos imediatamente rodovias, portos,
aeroportos, ferrovias, usinas e linhas de transmissão. Essas obras são visíveis, ocupam o
território e frequentemente simbolizam a capacidade de investimento do Estado. Existe,
porém, uma infraestrutura muito menos visível, mas igualmente essencial para o
desenvolvimento nacional. Ela é formada pelas universidades, institutos de pesquisa,
laboratórios, agências de fomento, equipamentos científicos e, sobretudo, pelas
pessoas que produzem conhecimento. É essa infraestrutura que permite a um país
compreender problemas complexos, desenvolver tecnologias, formar talentos e construir
soluções para seus próprios desafios. Ao contrário de uma estrada ou de uma ponte, essa
infraestrutura não pode ser construída rapidamente. Ela exige continuidade, planejamento e
décadas de investimento. Mas pode ser fragilizada em poucos anos pela descontinuidade de
políticas públicas, pela instabilidade do financiamento ou pela perda de talentos. Durante
muito tempo acreditou-se que investir em ciência era uma consequência natural do
desenvolvimento econômico. Hoje sabemos que ocorre exatamente o contrário. Em um
mundo marcado pela competição tecnológica, pela inteligência artificial, pela corrida dos
semicondutores, pela transição energética, pela biotecnologia e pela disputa em torno de
minerais críticos, produzir conhecimento tornou-se uma das principais fontes de poder das
nações. A questão estratégica já não é apenas quem possui recursos naturais ou capacidade
industrial. É quem domina o conhecimento necessário para transformar esses recursos em
inovação, competitividade e bem-estar. Essa mudança de perspectiva aparece claramente
em temas que o Brasil vem discutindo com intensidade, como as terras raras. O verdadeiro
valor estratégico desses minerais não está simplesmente na sua extração. Está na
capacidade científica, tecnológica e industrial de transformá-los em ímãs permanentes,
motores elétricos, equipamentos médicos, sistemas de defesa e inúmeras outras aplicações
de alto valor agregado. O mesmo raciocínio vale para semicondutores, biotecnologia,
computação avançada e inteligência artificial. Nesse contexto, universidades e institutos de
pesquisa deixam de ser apenas espaços de produção acadêmica. Passam a integrar a
infraestrutura estratégica do país. Talvez este seja um dos pontos mais importantes para o
debate público brasileiro. Costumamos reconhecer facilmente a importância de uma rodovia
ou de uma hidrelétrica para o desenvolvimento. Ainda temos dificuldade, entretanto, de
enxergar um laboratório, um programa de pós-graduação ou uma agência de fomento como
parte da mesma lógica de infraestrutura nacional. Essa visão precisa mudar. Nenhum país
que hoje lidera a fronteira tecnológica construiu sua capacidade científica de maneira
descontínua. Os resultados observados atualmente são consequência de políticas
persistentes, mantidas ao longo de décadas, frequentemente atravessando diferentes
governos e conjunturas econômicas. Por isso, o principal desafio talvez não seja apenas
ampliar os investimentos em ciência. É garantir sua continuidade. A pesquisa científica
trabalha com horizontes de cinco, dez ou quinze anos. A formação de um pesquisador exige
ainda mais tempo. A construção de um laboratório de excelência é resultado de sucessivas
gerações de investimento. Entretanto, os ciclos orçamentários e as incertezas
frequentemente dificultam esse planejamento de longo prazo. O mesmo vale para as
carreiras científicas. Atrair jovens talentosos para a pesquisa depende não apenas de
vocação, mas também da existência de perspectivas profissionais, estabilidade institucional e
reconhecimento social. Quando essas condições se enfraquecem, os efeitos não aparecem
imediatamente. Tornam-se visíveis anos depois, quando o país percebe que perdeu
competências estratégicas cuja reconstrução levará muito tempo. É exatamente por isso
que ciência precisa ser tratada como política de Estado, e não apenas como política de
governo. Nos últimos anos, iniciativas como a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e
Inovação (ENCTI) e o novo Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação (PACTI) que
inicia sua elaboração para o próximo quinquênio representam avanços importantes ao buscar
estabelecer diretrizes de longo prazo para o sistema nacional de CT&I. Mais do que
programas específicos, esses instrumentos expressam uma visão de continuidade,
indispensável para um ambiente em que conhecimento, inovação e desenvolvimento
caminham juntos. A sociedade brasileira frequentemente pergunta quanto custa investir
em ciência. Talvez a pergunta mais importante seja outra: quanto custa deixar de
construir capacidade científica? Os países não se tornam soberanos apenas porque
enfrentam bem uma crise. Tornam-se soberanos porque, muito antes dela, decidiram investir
continuamente na formação de pessoas, na produção de conhecimento e na construção de
instituições capazes de antecipar desafios e criar soluções. Essa é a infraestrutura invisível
que sustenta o futuro. Financiar ciência, portanto, não significa apenas apoiar pesquisadores
ou manter laboratórios em funcionamento. Significa construir a capacidade do Brasil de
compreender o mundo, desenvolver tecnologias próprias, tomar decisões com autonomia e
definir, com liberdade, seu próprio caminho de desenvolvimento. No século XXI, talvez não
exista investimento mais estratégico do que esse.
*O artigo expressa exclusivamente a opinião do autor
Fonte: Jornal da Ciência
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