O Brasil precisa transformar o diagnóstico acumulado sobre formação, pesquisa e recursos humanos em inteligência artificial (IA) em uma estratégia de longo prazo, com prioridades e metas para os próximos dez anos. A avaliação foi apresentada pelo presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Anderson Gomes, durante o seminário onine “Formação de Recursos Humanos em IA no Brasil: Desafios e Gargalos”, realizado hoje (18). pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP).
Para Gomes, o desafio brasileiro vai além de formar mais especialistas. É preciso construir um sistema nacional de competências em IA que articule educação, pesquisa, pós-graduação, empresas, governo, infraestrutura tecnológica e as diferentes regiões do país.
A participação do presidente do CGEE ocorreu na etapa de debates do seminário, que reuniu especialistas para discutir formação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, na sigla em inglês), pesquisa em IA na América Latina, participação brasileira nos principais congressos internacionais da área e iniciativas de formação desenvolvidas pela USP. Gomes participou da discussão ao lado da presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), de Denise Pires de Carvalho, e do professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Virgilio Almeida.
Do diagnóstico ao planejamento
Ao iniciar a sua participação, Gomes destacou o papel do CGEE na realização de estudos prospectivos e na produção de subsídios para políticas públicas. Também ressaltou a contribuição do Centro em iniciativas estruturantes da política científica e tecnológica brasileira, como a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI), o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI).
A partir dessa experiência, defendeu que os dados apresentados no seminário sejam usados não apenas para descrever a situação atual, mas para orientar decisões sobre o futuro. “Esses números são importantes. Eles nos ajudam a entender onde estamos, o que avançou e onde estão as lacunas. Mas, de certa forma, eles são um olhar pelo retrovisor”, disse.
Ao comentar os dados sobre formação em STEM, Gomes chamou atenção para um desafio que antecede a formação específica em inteligência artificial. “O gargalo começa antes da IA, antes da computação”, afirmou.
De acordo com ele, a formação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática precisa ser fortalecida desde a educação básica, com atenção especial ao ensino médio. Deficiências nessa etapa repercutem posteriormente na graduação, na pós-graduação e na formação de profissionais especializados. O percurso formativo, portanto, precisa ser observado de maneira integrada, da educação básica à inserção profissional e à retenção de talentos.
Outro ponto destacado foi a necessidade de distinguir os diferentes perfis que compõem o ecossistema de inteligência artificial. A diferenciação é importante porque cada perfil exige competências e trajetórias de formação distintas. Mais do que aumentar o número de pessoas qualificadas, portanto, o país precisa definir quais capacidades pretende desenvolver.
A partir dessa reflexão, o dirigente propôs uma pergunta para orientar o planejamento dos próximos anos: “Que força de trabalho em inteligência artificial o Brasil quer ter em 2030 e 2035? Não só quantas pessoas, mas principalmente com quais competências?”, questionou.
Segundo ele, o planejamento também precisa incorporar outras duas dimensões: em quais setores essas competências serão necessárias e em quais regiões do país elas deverão estar presentes.
A geografia da inteligência artificial
Para o presidente do CGEE, o país precisa construir uma verdadeira geografia da inteligência artificial, capaz de distribuir competências, fortalecer redes de pesquisa e inovação e conectar diferentes territórios às demandas nacionais.
Gomes apontou, ainda, a necessidade de aprimorar a capacidade do país de medir e acompanhar a trajetória de seus recursos humanos, integrando informações sobre formação, pós-graduação, pesquisa, inserção profissional e circulação internacional. Essa articulação, segundo ele, pode constituir uma nova agenda de estudos e informações estratégicas.
Na avaliação do presidente do Centro, o Brasil precisa apoiar a participação de pesquisadores em redes internacionais e, ao mesmo tempo, criar mecanismos para conectar essas experiências ao Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. A estratégia deve combinar formação, apoio financeiro, circulação, atração e retenção de profissionais, sem perder de vista a valorização dos pesquisadores que já atuam no país.
Talento como infraestrutura estratégica
Para Gomes, a agenda de formação em IA não pode ficar sob responsabilidade isolada de uma instituição ou ministério. Formação de pessoas e infraestrutura tecnológica precisam ser planejadas conjuntamente. “Não adianta a gente ter só as pessoas e não ter infraestrutura. Não adianta a gente ter infraestrutura e não ter as pessoas com competência adequada”, afirmou.
A inteligência artificial também exige, segundo ele, uma formação que ultrapasse os limites tradicionais da computação. Gomes destacou as experiências apresentadas pela USP e observou que a existência de diferentes centros de pesquisa pode contribuir para a construção de competências interdisciplinares, desde que essas estruturas estejam conectadas.
A partir disso, sugeriu que parte da formação em IA seja organizada em torno de missões estratégicas, combinando conhecimentos básicos em inteligência artificial com especializações relacionadas aos grandes desafios nacionais. “Por que não fazer formação que tem um básico, mas tem IA mais clima? Tem gente com competência. Por que não IA mais agricultura, IA mais energia?”, disse. A mesma abordagem, acrescentou, poderia ser aplicada às políticas públicas e à transformação digital do Estado.
Para Gomes, esse modelo aproxima a formação das necessidades concretas do país e reforça o caráter transversal da inteligência artificial. Como exemplo, citou a área de minerais críticos e terras raras, considerada estratégica para o Brasil e também objeto de estudos do CGEE.
O presidente do Centro comentou, ainda, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Embora reconheça que o documento pode ser aperfeiçoado, defendeu que seja utilizado como ponto de partida para avançar na definição de prioridades e mecanismos de implementação.
A década da implementação
Ao concluir a sua participação, Gomes analisou que o Brasil e o mundo já acumularam um volume expressivo de diagnósticos sobre os impactos da IA, as transformações no trabalho, a formação de pesquisadores e as necessidades de infraestrutura e competências. “A gente tem um diagnóstico muito bom dos últimos dez anos, não só nosso, mas do mundo”, afirmou.
O desafio agora, de acordo com ele, é transformar esse conhecimento em ação e definir como implementar, nos próximos anos, aquilo que já foi diagnosticado. Por isso, Gomes classificou o próximo período como a “década da implementação”.
A discussão, portanto, deixa de se concentrar apenas em quantas pessoas o Brasil precisa formar e passa a envolver quais competências o país precisa construir, onde elas devem estar, a quais setores devem atender, de qual infraestrutura necessitam e como podem ser articuladas a uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Para a próxima década, o desafio, na avaliação de Gomes, é transformar o conhecimento já produzido em capacidade nacional de desenvolver e aplicar inteligência artificial.
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