Debate internacional discute soberania tecnológica, produtividade e investimentos em inteligência artificial aplicada à indústria
O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) participou, nesta quarta-feira (14), do EU-Brazil Business Dialogue – IA Industrial: A Nova Fronteira de Investimentos na Indústria Brasileira, realizado na Fundação Fernando Henrique Cardoso (FFHC), em São Paulo. O encontro reuniu representantes do setor produtivo, instituições de pesquisa, organismos internacionais, empresas de tecnologia e agentes de fomento para discutir os desafios e oportunidades da inteligência artificial (IA) aplicada à indústria brasileira.
Representando o CGEE, o diretor de Projetos Estratégicos e Relações Internacionais, Caetano Penna, apresentou a palestra “IA Industrial e a Nova Fronteira da Produtividade no Brasil: pilha, escala, soberania”, na qual abordou os desafios estruturais para consolidar a IA industrial como vetor de transformação produtiva no país.
De acordo com Penna, o principal desafio brasileiro não está apenas na disponibilidade das tecnologias, mas na capacidade de articular diferentes dimensões do ecossistema tecnológico e produtivo. Entre elas estão infraestrutura computacional, mecanismos de difusão tecnológica, instrumentos de financiamento e inserção produtiva em escala, especialmente voltada às pequenas e médias empresas.
Nesse contexto, o diretor do CGEE apresentou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) como a primeira iniciativa coordenada de política pública voltada à articulação dessas dimensões, com foco na ampliação da produtividade, da competitividade industrial e da soberania tecnológica brasileira.
Caetano Penna também destacou o papel estratégico do PBIA como instrumento de política industrial e tecnológica voltado à mobilização de capacidades nacionais. O plano prevê investimentos de R$ 23,03 bilhões entre 2024 e 2028, distribuídos em 54 ações estruturantes organizadas em cinco eixos articulados.
A maior parcela dos recursos, correspondente a R$ 13,79 bilhões (59,9%), será destinada ao eixo de inovação empresarial e indústria, considerado central para a consolidação da IA industrial no Brasil. Outros R$ 5,79 bilhões (25,2%) serão direcionados à infraestrutura e pesquisa & desenvolvimento. Já os eixos de serviços públicos e capacitação receberão, respectivamente, R$ 1,76 bilhão (7,6%) e R$ 1,15 bilhão (5,0%). O plano também prevê recursos voltados à regulação e governança, além de R$ 435 milhões destinados a ações de impacto imediato.
Durante o encontro, o CGEE também apresentou dados do estudo O Panorama Brasileiro da Ciência, Tecnologia e Inovação em Inteligência Artificial, elaborado pelo Observatório de Tecnologias Digitais (OTD) do Centro, em parceria com a Rede de Inovação dos Países Baixos, que mapeia a infraestrutura científica, tecnológica e produtiva brasileira no campo da inteligência artificial.
Segundo o levantamento, o Brasil conta atualmente com 144 unidades de pesquisa em IA, incluindo 110 centros de pesquisa e 13 Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs), consolidando-se como um dos principais polos de inteligência artificial da América Latina. O estudo aponta ainda que a indústria e a manufatura representam atualmente o principal campo de aplicação da IA no país, com 30 unidades dedicadas ao setor.
Os dados apresentados mostram ainda que o Brasil responde por 1,8% da produção acadêmica mundial em inteligência artificial, liderando a produção científica latino-americana na área. O país registra cerca de 39,5 mil artigos científicos sobre IA indexados na Web of Science e forma aproximadamente 3,2 mil doutores por ano em temas relacionados ao setor, o equivalente a 6,9% das teses defendidas nacionalmente. O levantamento também destaca a forte inserção internacional da pesquisa brasileira, com aproximadamente 50% da produção científica desenvolvida em coautoria com instituições de países como Estados Unidos, Reino Unido, Portugal e França.
Para concluir, Penna ressaltou que o Brasil reúne demanda industrial em larga escala, capacidade científica instalada, infraestrutura de pesquisa e instrumentos de política pública capazes de sustentar cooperações internacionais de longo prazo na área de IA industrial. Nesse contexto, apresentou o PBIA como um instrumento estruturante para ampliar a inserção do país nas cadeias globais de inovação e fortalecer a soberania tecnológica brasileira.
“O Brasil tem capacidade e as traz à mesa. Está nos números do PBIA e nas evidências do CGEE. A pergunta é como estruturar a entrada nesse ecossistema para construir capacidade, e não só comprá-la, destacou.
Ao encerrar a apresentação, o diretor do CGEE destacou que o interesse do setor empresarial em compreender como a inteligência artificial pode impulsionar a produtividade industrial precisa estar articulado a uma estratégia nacional de desenvolvimento tecnológico. Segundo Penna, além de discutir como a IA pode transformar a indústria, é fundamental debater de que maneira a própria indústria pode contribuir para o avanço das ambições brasileiras em soberania tecnológica.
Evento - O EU-Brazil Business Dialogue integrou a programação paralela da São Paulo Innovation Week 2026 e teve como objetivo aproximar empresas brasileiras e europeias, instituições financeiras, centros de pesquisa e formuladores de políticas públicas para estimular investimentos, parcerias tecnológicas e iniciativas de digitalização industrial voltadas à produtividade, à inovação e à descarbonização da economia.
Além da participação do CGEE, o evento contou com representantes da Fundação Fernando Henrique Cardoso (FFHC), Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Delegação da União Europeia no Brasil, ApexBrasil e Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). Também participaram empresas e instituições como Ericsson, Siemens, Vale, Gerdau, Bosch, Embraer, WEG, Stellantis e Schneider Electric, além de agentes ligados ao financiamento, inovação e transformação digital da indústria.
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