Em discurso, diretor-presidente do CGEE revisita trajetória, colaborações internacionais e atuação na formação de pessoas e na gestão da ciência brasileira.
O diretor-presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Anderson Gomes, foi homenageado, hoje (20), com o Prêmio Joaquim da Costa Ribeiro, concedido pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) por sua contribuição à física da matéria condensada e aos materiais. Ao receber a distinção, Anderson revisitou momentos marcantes de sua trajetória científica e profissional e destacou a importância das redes de colaboração, dos mestres que contribuíram para a sua formação e das pessoas que ajudou a formar ao longo da carreira.
“Ciência é coletiva, o conhecimento se constrói junto”, afirmou Gomes, ao agradecer à família, aos estudantes, colaboradores nacionais e internacionais e às instituições que apoiaram sua trajetória, entre elas Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
A homenagem também levou o pesquisador a estabelecer uma conexão com a história da física brasileira. O prêmio leva o nome de Joaquim da Costa Ribeiro, cientista responsável pela descoberta do fenômeno que ficou conhecido como efeito Costa Ribeiro. Gomes lembrou que a descoberta, relacionada à produção de corrente elétrica durante processos de aquecimento e solidificação de materiais dielétricos, teve repercussão internacional e contribuiu para a inserção da ciência brasileira no cenário científico mundial.
O diretor-presidente do CGEE contou, ainda, que possui uma conexão acadêmica com a família do cientista homenageado. Sérgio Costa Ribeiro, filho de Joaquim da Costa Ribeiro, foi orientador de mestrado de Cid, que posteriormente participou de sua própria formação acadêmica.
Da formação aos grandes experimentos com luz
Ao percorrer a sua trajetória científica, Gomes destacou a importância dos encontros e colaborações que marcaram a sua carreira. Um dos episódios lembrados foi a sua participação, ainda no início da carreira, em uma colaboração entre Brasil e França que envolvia pesquisas com luz, fibras ópticas e geração de pulsos ultracurtos.
Durante três anos consecutivos, o pesquisador passou períodos no laboratório de Saclay, na França, onde trabalhou com Anne L’Huillier e outros pesquisadores. Décadas depois, L’Huillier receberia o Prêmio Nobel de Física de 2023, juntamente com Pierre Agostini e Ferenc Krausz.
Gomes contou que, após a premiação, enviou uma mensagem de congratulações à pesquisadora. A resposta recebida foi: “Many thanks, you were there at the beginning” (“Muito obrigada, você estava lá no começo”). A lembrança, de acordo com o dirigente, remete a trabalhos desenvolvidos naquele período, incluindo uma publicação da qual participou e que contribuiu para os estudos relacionados à geração de pulsos de luz extremamente curtos.
A experiência integra uma trajetória dedicada à interação entre luz e matéria. Gomes apresentou trabalhos com diferentes fontes de fótons, lasers de nitrogênio, lasers de corantes, fibras ópticas e lasers aleatórios, além de pesquisas mais recentes com materiais bidimensionais, biomateriais e aplicações em biofotônica.
O pesquisador destacou, ainda, os estudos com elementos de terras raras que, além de possibilitarem diferentes fenômenos e aplicações científicas, ocupam atualmente posição estratégica por integrarem o grupo de materiais críticos para o desenvolvimento tecnológico.
Uma trajetória marcada pela ciência e pela gestão
Além da pesquisa experimental, Gomes dedicou parte significativa de sua carreira à gestão científica e à formulação de políticas públicas. Foi chefe de departamento, diretor do Instituto Tecnológico de Pernambuco, ocupou funções em administração universitária e foi secretário de Ciência e Tecnologia e de Educação de Pernambuco.
Também participou como secretário-adjunto da 5ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e de grupos de trabalho relacionados à elaboração de estratégias nacionais para a área.
Ao recordar a sua passagem pela gestão pública, Gomes destacou um programa criado em Pernambuco para possibilitar que estudantes da rede pública realizassem intercâmbio no exterior. De acordo com ele, a iniciativa surgiu a partir de uma proposta do então governador Eduardo Campos e passou a levar anualmente cerca de mil estudantes para estudar fora do país.
As experiências de gestão também foram apresentadas como parte de uma trajetória construída a partir de diferentes referências. O diretor-presidente do CGEE lembrou seus orientadores de graduação e mestrado, Cid e Rios, além de Sérgio Rezende, que foi uma de suas referências na gestão da ciência. Os três também foram anteriormente agraciados com o Prêmio Joaquim da Costa Ribeiro.
“Cada desafio foi um degrau”
Ao falar sobre sua formação, Gomes fez questão de compartilhar os episódios de dificuldade. Relembrou que foi reprovado no primeiro vestibular e em diferentes momentos da graduação e contou que chegou a receber aprovação para realizar o doutorado na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e no Imperial College, no Reino Unido. Por orientação de seus professores, escolheu o Imperial College. “Eu queria dizer que a vida é assim: altos e baixos e cada desafio foi um degrau, cada queda um impulso e cada escolha teve um propósito”, afirmou.
Para Gomes, porém, a principal marca de uma carreira científica não está apenas nas publicações, nos números ou nas honrarias. Ao apresentar os seus resultados científicos, afirmou que o mais importante foi passar de alguém que recebeu formação de seus mestres para alguém que passou a formar novas gerações de pesquisadores. “Do jeito que eu aprendi a ser formado, eu comecei a aprender a formar pessoas. Acho que esse é o legado mais importante”, destacou.
Ao concluir o discurso, Gomes retomou a ideia que atravessou a sua apresentação: ninguém constrói uma trajetória científica sozinho. Agradeceu à família, aos estudantes, colaboradores e instituições que fizeram parte de sua caminhada e afirmou que a homenagem aumenta sua responsabilidade diante da ciência e da educação. “Eu fico com essa frase aqui, porque ela aumenta minha responsabilidade para fazer, com fazer científico, com educação e com a construção de um futuro melhor por meio da ciência”, concluiu.
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