Terras raras

CGEE promove debate sobre o papel do Brasil nas cadeias globais de terras raras durante a SBPC 2026

Agenda destacou oportunidades e desafios para agregar valor às terras raras no Brasil.

O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) realizou, ontem (27), a mesa-redonda “Terras Raras em disputa: o papel do Brasil nas cadeias globais de tecnologias estratégicas”, como parte da programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).

Coordenada pelo diretor-presidente do CGEE, Anderson Gomes, a atividade reuniu Osório Coelho, da Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec/MCTI), Ronaldo Carmona, da Finep e da Escola Superior de Guerra, e Mariele Bonfante, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para discutir o papel estratégico das terras raras diante das transformações tecnológicas, da transição energética e da reorganização das cadeias globais de suprimentos.

Na abertura da mesa, Anderson Gomes apresentou o estudo Terras Raras em Disputa: o papel do Brasil nas cadeias globais de tecnologias estratégicas, elaborado pelo CGEE, destacando que a publicação busca subsidiar decisões estratégicas para o fortalecimento da cadeia nacional desses minerais. Segundo ele, o documento está alinhado à Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI 2024–2034) e demonstra que o principal desafio para o Brasil não é apenas explorar suas reservas, mas transformar esse potencial em capacidades industriais, tecnológicas e geopolíticas, por meio de uma estratégia de longo prazo voltada à agregação de valor, à inovação e à sustentabilidade.

As terras raras são minerais essenciais para a fabricação de produtos de alta tecnologia, como veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, sistemas de defesa e outras aplicações estratégicas. O debate abordou oportunidades para ampliar a participação do Brasil nesse mercado, agregando valor aos recursos minerais por meio do desenvolvimento científico, da inovação e da industrialização.

Durante sua apresentação, o professor Ronaldo Carmona, da Finep e da Escola Superior de Guerra, destacou que o Brasil precisa consolidar uma estratégia de longo prazo para o desenvolvimento da cadeia de terras raras, articulando políticas voltadas à pesquisa, à inovação e à industrialização. Segundo o pesquisador, a experiência internacional demonstra que o fortalecimento desse setor depende de políticas de Estado contínuas, capazes de ampliar o domínio tecnológico e agregar valor aos recursos minerais nacionais, reduzindo a dependência da exportação de commodities.

Carmona também abordou a dimensão geopolítica das terras raras, ressaltando que esses minerais assumiram papel estratégico para a segurança nacional e para a competitividade econômica de diversos países, por serem insumos essenciais para tecnologias ligadas à transição energética, à economia digital e à indústria de defesa. Nesse contexto, destacou que o Brasil reúne condições para ocupar uma posição mais relevante nas cadeias globais de tecnologias estratégicas, desde que fortaleça sua capacidade científica, tecnológica e industrial.

Representando a Secretaria de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (Setec/MCTI), Osório Coelho destacou as iniciativas em andamento para fortalecer o ecossistema nacional de inovação voltado aos minerais críticos e estratégicos. Entre elas, citou linhas de financiamento da Finep com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), como o programa Mais Inovação e editais voltados à transformação mineral, além da parceria entre Finep e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para apoiar projetos do setor. O representante do MCTI também anunciou a criação de um Centro de Competência em Minerais Críticos e Estratégicos, no âmbito da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), que atuará na articulação de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, cooperação internacional, formação de recursos humanos e apoio a tecnologias de fronteira. Segundo Coelho, essas iniciativas buscam ampliar a capacidade tecnológica do país e agregar valor à cadeia mineral brasileira.

Na sequência, a pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mariele Bonfante, apresentou os avanços de uma rede nacional de pesquisa dedicada ao desenvolvimento de tecnologias relacionadas às terras raras. A iniciativa reúne universidades, centros de pesquisa e empresas de diferentes regiões do país e atua em toda a cadeia produtiva de ímãs permanentes, da mineração à aplicação industrial. Entre os resultados alcançados, destacou a produção do primeiro ímã permanente brasileiro fabricado com terras raras extraídas, separadas e processadas no Brasil, demonstrando o domínio nacional das principais etapas tecnológicas em escala laboratorial.

Mariele Bonfante também ressaltou que o fortalecimento dessa cadeia produtiva deve estar associado à sustentabilidade. Segundo a pesquisadora, diferentes instituições da rede desenvolvem tecnologias para reduzir os impactos ambientais do processamento de terras raras, incluindo iniciativas voltadas à diminuição das emissões de dióxido de carbono (CO₂). Ela destacou ainda o potencial da economia circular para ampliar o reaproveitamento desses materiais, reduzir a necessidade de novas atividades de mineração e fortalecer uma cadeia produtiva mais eficiente, inovadora e ambientalmente responsável.

A mesa-redonda integrou a programação especial do CGEE na SBPC 2026, que celebra os 25 anos de atuação do Centro com debates, sessões especiais, lançamento de publicações e exposição institucional voltados aos principais desafios e oportunidades para a ciência, a tecnologia, a inovação e o desenvolvimento sustentável no Brasil.

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