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Energia limpa é o principal trunfo do Brasil na inteligência artificial, defende diretor do CGEE em fórum Brasil-França

Caetano Penna participa do painel “AI for energy transition”, no Fórum Brasil-França sobre Energia e Inteligência Artificial, na Embaixada do Brasil em Paris, e propõe usar a matriz elétrica renovável como instrumento de barganha para desenvolver capacidades nacionais em IA.

O diretor de Projetos Estratégicos e Relações Internacionais do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Caetano Penna, participa, hoje (29), do Fórum Brasil-França sobre Energia e Inteligência Artificial, promovido pela Embaixada do Brasil em Paris. Com o tema “Powering AI, Transforming Energy”, o encontro reúne representantes de governo, indústria, academia e investidores dos dois países.

A programação começa às 16h (horário de Paris), com abertura do embaixador do Brasil na França, Ricardo Neiva Tavares, e palestra de Siddharth Singh, da Agência Internacional de Energia (AIE), sobre o nexo global entre energia e IA. O primeiro painel, “Powering AI in Brazil”, reúne Carla Cohen, da TotalEnergies, e Pedro Ninô de Carvalho, do Cired.

No segundo painel, “AI for energy transition”, às 17h15, Penna divide a mesa com Vitor Correia, da AXIA Energia, e Bruno Lecointe, da Bull. Ele argumenta que a energia é a camada da infraestrutura de IA em que o Brasil já parte na frente, e que a tarefa da política pública é converter essa vantagem em capacidades tecnológicas, industriais e de inovação.

“A inteligência artificial entra no sistema elétrico em dois papéis ao mesmo tempo: como ferramenta para operar uma rede cada vez mais variável e distribuída, e como uma das cargas que mais crescem nessa mesma rede”, afirma Penna. Entre as aplicações já em operação, ele cita a previsão de geração eólica e solar, o despacho, a manutenção preditiva de usinas e linhas e o aumento da capacidade de transmissão das linhas existentes. Do lado da demanda, lembra que os data centers consumiram cerca de 1,5% da eletricidade mundial em 2024 e que a AIE projeta mais que dobrar esse consumo até 2030.

Para o diretor do CGEE, o Brasil vive um paradoxo que também é uma oportunidade. A matriz elétrica foi 86,8% renovável em 2025, de acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mas os cortes de geração eólica e solar já somam mais de 70 TWh desde o fim de 2021, enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) recebeu pedidos de conexão de data centers que chegam a cerca de 20 GW. “Energia limpa desperdiçada de um lado e fila por energia do outro é uma falha de coordenação, e resolver falhas de coordenação é tarefa da política industrial”, diz.

Para que a IA contribua para um sistema elétrico mais limpo, Penna aponta três condições: capacidade de transmissão, energia firme e disponibilidade de água. Ele também chama atenção para a questão distributiva de quem paga pela expansão da rede exigida pelos grandes centros de dados, e para os riscos de dependência de poucos fornecedores de hardware e software.

O diretor destaca os instrumentos que o país já tem. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), “IA para o Bem de Todos”, prevê R$ 23 bilhões de 2024 a 2028 e foi construído pelo MCTI com o apoio técnico do CGEE, em um trabalho coletivo que envolveu governo, academia e setor produtivo. A infraestrutura pública de computação avança por três rotas complementares, e o Redata (Lei 15.504/2026) condiciona os benefícios fiscais a data centers ao uso de energia renovável ou de baixa emissão, a metas de eficiência hídrica, à reserva de capacidade para o mercado interno e a investimentos no país. “O Brasil precisa decidir quanto vale a nossa eletricidade. E depois cobrar”, resume.

Sobre parcerias internacionais, Penna propõe um critério simples: “se o parceiro for embora amanhã, o que o Brasil consegue fazer?”. Segundo ele, Brasil e França têm complementaridades claras, com sistemas elétricos de baixo carbono (nuclear de um lado, renovável do outro), interesse comum em modelos e arquiteturas abertas e a disposição de não depender de um único polo tecnológico. “Soberania tecnológica não é autarquia. É poder de decisão e poder de barganha”, conclui.

Sobre o CGEE

O CGEE é uma organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Realiza estudos prospectivos, avaliações e assessoria técnica para políticas de ciência, tecnologia e inovação, e deu suporte técnico à elaboração e ao monitoramento do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.

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