País precisa ir além da mineração e investir em inovação, indústria e tecnologia para agregar valor aos minerais críticos.
Quando se fala em terras raras no Brasil, a 1ª pergunta costuma ser: quanto temos? É uma pergunta natural. Afinal, o país abriga algumas das maiores reservas desses minerais, essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos médicos, sistemas de defesa e uma ampla gama de tecnologias que definirão a economia das próximas décadas. Mas essa é a pergunta errada. A questão que realmente importa é outra: o que o Brasil pretende fazer com elas?
Essa diferença pode parecer só semântica. Não é. Ela separa duas visões completamente distintas de desenvolvimento. Na 1ª, terras raras são mais uma commodity destinada à exportação, repetindo uma trajetória conhecida da economia brasileira de vender recursos naturais e importar produtos de alto valor agregado. Na 2ª, terras raras tornam-se um ponto de partida para construir capacidades industriais, tecnológicas e científicas capazes de inserir o país nas etapas mais sofisticadas das cadeias globais de valor. É esta escolha que está diante do Brasil.
O debate internacional mostra que os países mais competitivos já compreenderam essa mudança. Estados Unidos, União Europeia, China, Japão e Coreia do Sul não estão estruturando políticas só para ampliar o acesso a minerais críticos. Estão construindo estratégias industriais completas, combinando mineração, processamento químico, inovação, manufatura avançada, financiamento, compras públicas e diplomacia econômica. O objetivo não é ter mais minério. É dominar as etapas da cadeia onde se concentram conhecimento, tecnologia e valor econômico. Esse é o ponto que muitas vezes desaparece no debate brasileiro.
Nos últimos meses, a descoberta de novas reservas e os investimentos anunciados para o setor despertaram um entusiasmo compreensível. O Brasil, afinal, reúne condições excepcionais: recursos minerais abundantes, tradição em mineração, competência científica reconhecida internacionalmente e uma matriz energética predominantemente renovável, capaz de conferir vantagem competitiva à produção de materiais de baixo carbono. Esses ativos são importantes. Mas, isoladamente, não asseguram desenvolvimento.
A história econômica mostra que abundância de recursos naturais nunca foi suficiente para assegurar prosperidade. O que diferencia os países que transformam riqueza mineral em riqueza econômica é a capacidade de construir instituições, desenvolver tecnologia, formar recursos humanos e consolidar uma base industrial competitiva. Em outras palavras, a vantagem não está no subsolo. Está naquilo que o país consegue construir acima dele. É exatamente por isso que a discussão sobre terras raras não pode permanecer restrita ao setor mineral. Ela precisa envolver política industrial, ciência e tecnologia, educação, infraestrutura, financiamento, comércio exterior e relações internacionais. A agenda das terras raras extrapola o setor mineral. Envolve o projeto de desenvolvimento que o Brasil pretende construir.
Essa perspectiva inspirou o estudo recentemente coordenado pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos), que propõe uma estratégia integrada para o desenvolvimento da cadeia brasileira de terras raras. A principal conclusão é simples, mas profundamente transformadora: o verdadeiro ativo estratégico não são só os minerais, mas as capacidades que o país conseguirá desenvolver ao seu redor. O estudo foi elaborado por especialistas no tema, e está alinhado ao que propõe a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2034, que considera o assunto 1 dos temas prioritários onde o o Brasil tem vulnerabilidade.
Isso significa investir em separação química e refino, estimular a produção de materiais avançados, fortalecer centros de pesquisa, formar especialistas, criar instrumentos de financiamento, estabelecer marcos regulatórios modernos e promover uma coordenação efetiva entre Estado, universidades e setor produtivo. Nenhuma dessas medidas produz resultados imediatos. Todas exigem visão de longo prazo.
Mas é exatamente assim que as economias que hoje lideram as tecnologias estratégicas construíram sua competitividade. Há, porém, um elemento adicional que torna essa discussão urgente. A reorganização das cadeias globais de valor abriu uma janela de oportunidade para novos atores. Empresas e governos buscam diversificar fornecedores, reduzir dependências excessivas e ampliar a resiliência das cadeias produtivas. Essa janela, entretanto, não permanecerá aberta indefinidamente. À medida que novos investimentos forem realizados e as cadeias internacionais se consolidarem, o espaço para novos entrantes tenderá a diminuir.
Por isso, o maior risco para o Brasil talvez não seja errar a estratégia. É demorar a escolhê-la. O debate sobre terras raras, portanto, não deveria começar pela pergunta sobre o tamanho de nossas reservas. Deveria começar por uma decisão muito mais importante. Queremos continuar exportando recursos naturais ou queremos transformar esses recursos em conhecimento, indústria, inovação e competitividade? Essa é a escolha que definirá o papel do Brasil na economia do século 21. Porque, no fim das contas, o país não está competindo por terras raras. Está competindo por capacidades.
Anderson Leonidas Gomes
Diretor-presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos
Texto original publicado em Poder 360
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