Em palestra em Cambridge, Caetano Penna analisou os desafios da América Latina diante das transformações geopolíticas e das transições verde e digital.
O diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Caetano Penna, participou, nesta terça-feira (15), do Encontro Internacional de Formuladores de Políticas de Inovação Industrial, promovido pelo Babbage Industrial Policy Forum, em Cambridge, no Reino Unido. A programação reuniu representantes de mais de 20 países para compartilhar experiências e debater tendências e desafios relacionados às políticas industriais e de inovação.
Penna foi um dos palestrantes da sessão de abertura, “O contexto global”, ao lado de especialistas que apresentaram as perspectivas da Ásia, da China, da Europa e dos Estados Unidos. Na exposição “América Latina: política industrial sob pressão hemisférica”, o diretor analisou os principais fatores, as mudanças recentes e as tendências que influenciam a formulação de políticas industriais na região.
Segundo Penna, a América Latina enfrenta pressões geopolíticas e realinhamentos eleitorais que se somam a problemas estruturais persistentes, como a baixa produtividade, a desindustrialização e a redução da base de competências profissionais, tecnológicas e científicas.
“A política industrial da América Latina está sendo remodelada por duas pressões simultâneas: a coerção hemisférica e o realinhamento eleitoral, que se sobrepõem a desafios estruturais que permanecem”, sintetizou.
O diretor ressaltou que a política industrial voltou a ocupar uma posição de destaque na agenda pública, mas os países da região ainda enfrentam limitações institucionais, financeiras e técnicas para transformar estratégias em resultados concretos. Embora tenham sido reconstruídos instrumentos de financiamento e apoio à produção, a resposta do setor empresarial permanece lenta e desigual.
A exposição também chamou a atenção para a necessidade de agregar valor aos recursos naturais da América Latina. Apesar de concentrar parcelas relevantes das reservas mundiais de minerais estratégicos, como lítio, cobre, nióbio, grafite e terras raras, a região ainda tem participação limitada nas etapas de processamento e industrialização.
No caso das terras raras, por exemplo, o Brasil detém cerca de 25% das reservas mundiais, mas responde por apenas 0,5% da produção. Para Penna, o desafio é vincular o acesso aos recursos minerais à produção local, ao desenvolvimento tecnológico e à formação de cadeias de valor regionais.
Risco semelhante se apresenta na transição digital. Com matrizes elétricas predominantemente limpas, países latino-americanos têm atraído investimentos em centros de dados e infraestrutura computacional. A energia, entretanto, pode se transformar em uma nova matéria-prima exportada sem a correspondente geração de capacidades produtivas e tecnológicas locais.
Nesse contexto, Penna destacou a importância de políticas que estabeleçam contrapartidas relacionadas à pesquisa e ao desenvolvimento, à formação de competências, à produção nacional e ao fortalecimento das empresas da região. A apresentação também abordou a Nova Indústria Brasil, que contabilizou R$ 300 bilhões em financiamentos aprovados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre 2023 e 2025, como uma das principais experiências regionais de política industrial orientada por missões.
Contribuições do encontro realizado no Brasil
A apresentação também levou a Cambridge as principais contribuições do encontro regional do Babbage Forum para a América Latina, realizado em 28 de abril, na sede da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no Rio de Janeiro. Organizada pelo CGEE e pelo Babbage Forum, a reunião contou com cerca de 22 especialistas e formuladores de políticas públicas da Argentina, do Brasil, do Chile, do Uruguai e do Reino Unido, além de representantes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Os debates evidenciaram que, embora a política industrial tenha recuperado legitimidade e espaço nas agendas governamentais, os países latino-americanos ainda encontram dificuldades para transformar estratégias em resultados. Entre os desafios identificados estão as desigualdades nas capacidades institucionais; a concentração da coordenação nos órgãos que controlam os recursos financeiros; a dificuldade de conciliar prioridades estratégicas e participação social; a lenta resposta das empresas aos instrumentos públicos; o avanço da inteligência artificial como infraestrutura; e a ausência de articulação regional diante das disputas geopolíticas.
Como caminhos para enfrentar esses desafios, os participantes defenderam a vinculação do acesso aos minerais estratégicos à produção local e à transferência de tecnologia; a criação de mecanismos regionais de avaliação que assegurem a continuidade das políticas para além dos ciclos eleitorais; e a manutenção de uma rede latino-americana dedicada ao intercâmbio de experiências sobre política industrial e inovação.
Em Cambridge, essas contribuições se somaram às discussões sobre a priorização e a ampliação de tecnologias emergentes; o fortalecimento das competências e das instituições responsáveis pela formulação de políticas públicas; a coordenação entre prioridades e capacidades nacionais e regionais; e o planejamento e a qualificação da força de trabalho.
O Babbage Industrial Policy Forum mantém uma comunidade internacional de especialistas e formuladores de políticas públicas voltada ao intercâmbio de experiências e à construção de respostas para os desafios econômicos, tecnológicos e geopolíticos contemporâneos. A participação no encontro reforça a atuação do CGEE na articulação internacional e na produção de conhecimento estratégico para políticas de ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento.
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