Pilar Veloso/iStockphoto/CartaCapital
Em artigo publicado na CartaCapital, o diretor-presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Anderson Gomes, discute um dos gargalos para o avanço do Brasil nessa área: a formação de recursos humanos especializados.
O Brasil pode ter uma das maiores oportunidades minerais das próximas décadas e, ainda assim, desperdiçá-la por falta de profissionais capazes de transformar minério em tecnologia.
A discussão sobre terras-raras costuma começar pelas reservas, pela geopolítica e pelos investimentos para abrir minas, construir plantas de separação e fabricar materiais avançados. Tudo isso importa. Mas há uma etapa menos visível e igualmente estratégica: formar engenheiros, químicos, físicos, geólogos, técnicos e pesquisadores capazes de operar uma cadeia que o País ainda não domina plenamente.
O estudo Terras Raras no Brasil: Estado da Arte, Cenários e um Mapa do Caminho Estratégico para 2026-2040, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), identificou esse gargalo. O País dispõe de bons grupos científicos, mas ainda existe déficit severo de especialistas em áreas como separação hidrometalúrgica e produção de ímãs.
Segundo estimativa citada no estudo, menos de 50 pesquisadores brasileiros teriam formação específica em separação de elementos de terras-raras. Uma única refinaria industrial pode demandar entre 80 e 120 técnicos e engenheiros especializados. Podemos, portanto, conseguir investimento, tecnologia e até construir uma planta antes de termos gente suficiente para operá-la com autonomia.
A formação de recursos humanos não é uma política acessória. É uma infraestrutura estratégica. E os humanos levam tempo para se formarem. Uma planta industrial pode ser construída em poucos anos. Um especialista em hidrometalurgia, metalurgia de terras-raras ou materiais magnéticos exige uma trajetória muito mais longa. O profissional necessário para uma refinaria no início da próxima década precisa começar a ser formado agora.
Por isso, o mapa do caminho do CGEE estabelece meta de pelo menos 500 especialistas formados até 2040 e propõe um programa emergencial, já em 2027-2028, com bolsas de mestrado e doutorado, cursos de especialização e treinamento em instituições nacionais e estrangeiras.
Também propõe uma Rede Nacional de Pesquisa em Terras-Raras e um programa nacional de formação com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Ministério da Educação (MEC) e entidades como Capes, CNPq, Senai e universidades.
Mas a resposta não pode limitar-se à pós-graduação. Uma cadeia de terras-raras precisa de pesquisadores, engenheiros, operadores e técnicos. Se quisermos avançar da mineração ao refino, aos metais, ligas e ímãs, a formação precisa acompanhar cada elo.
Nesse ponto, o Brasil não parte do zero. Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia mostram como redes podem concentrar competências e formar profissionais enquanto enfrentam problemas estratégicos. O projeto INCT PATRIA, voltado ao processamento e às aplicações de ímãs de terras-raras, deixou competências e resultados relevantes. A partir de 2025, o INCT MATERIA ampliou essa trajetória, reunindo instituições de várias regiões em materiais avançados à base de terras-raras.
Essa lógica de rede é adequada ao Brasil. Não precisamos criar uma “universidade de terras-raras”. Podemos articular pós-graduação, institutos tecnológicos, Senai, empresas, INCTs e centros de pesquisa em torno de missões concretas. Isso é diferente de simplesmente oferecer mais bolsas. A formação deve estar associada ao mapa tecnológico da cadeia.
Se o gargalo é separação e refino, precisamos de competências em extração por solventes, hidrometalurgia, controle de processo e engenharia de escala. Para metais e ligas mudam as competências. Para ímãs permanentes entram ciência dos materiais, magnetismo, processos industriais e engenharia de produto.
A experiência chinesa ajuda a dimensionar o desafio. Ao longo de décadas, a China construiu um ecossistema que aproxima universidades, escolas técnicas, laboratórios, institutos de pesquisa e empresas. Levantamentos recentes mostram dezenas de laboratórios especializados e instituições de ensino com cursos ligados às terras-raras, formando centenas de estudantes por ano. Essa acumulação de conhecimento ajuda a explicar por que a liderança chinesa não decorre apenas da disponibilidade de minério.
Não precisamos copiar esse modelo. A lição é simples: capacidade tecnológica é acumulativa. O conhecimento de operar uma refinaria ou produzir um ímã competitivo não surge quando uma fábrica é inaugurada. É construído durante anos, circula entre laboratórios e empresas e se consolida quando há continuidade.
E agora há uma diferença importante: o Congresso já aprovou um marco nacional para os minerais críticos e estratégicos, encaminhado à sanção presidencial. A discussão deixa, portanto, de ser apenas sobre a necessidade de uma política e passa a ser sobre como implementá-la.
Nesse ponto, recursos humanos precisam ocupar posição central. Não basta criar instrumentos de financiamento e incentivos à industrialização se o País não formar os profissionais capazes de transformar esses instrumentos em capacidade produtiva e tecnológica.
Para cada cadeia prioritária deveria existir um mapa de competências: quantos profissionais serão necessários, em quais especialidades, em que prazo e onde serão formados. Bolsas, estágios industriais, laboratórios-fábrica e cursos técnicos desenhados com o setor produtivo podem aproximar formação e emprego.
Há ainda uma dimensão territorial. Novas atividades minerais precisam deixar capacidades onde se instalam. Empresas, universidades, institutos federais e escolas técnicas podem construir currículos conectados às oportunidades locais, ampliando o emprego qualificado nas regiões produtoras.
No debate sobre soberania mineral, falamos muito em controlar recursos, ativos e tecnologias. Falamos menos sobre quem domina o conhecimento necessário para fazê-los funcionar. Talvez devêssemos inverter a pergunta: o que torna um mineral estratégico – estar no nosso subsolo ou termos trabalhadores capazes de transformá-lo em tecnologia?
O Brasil já possui a primeira condição. A segunda precisa começar a ser construída agora.
Por Anderson S. L. Gomes
Diretor-presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), membro titular da Academia Brasileira de Ciências e professor titular da Universidade Federal de Pernambuco.
Artigo originalmente publicado na revista CartaCapital.
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