Na abertura do Fórum Debate, em Vitória, Caetano Penna apresentou dados do projeto TVI, parceria com a ABDE e a Universidade de Cambridge, e relacionou a agenda ao Mapa do Caminho apresentado pela Presidência da COP30
As instituições financeiras de desenvolvimento brasileiras já incorporaram a transição verde às suas estratégias e precisam agora ganhar capacidade técnica e diversificar instrumentos para financiar a descarbonização da indústria. A avaliação foi apresentada por Caetano Penna, Diretor de Projetos Estratégicos e Relações Internacionais do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), na abertura do Fórum Debate “Financiamento para uma Economia de Baixo Carbono”, promovido nesta quinta-feira pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), em Vitória.
Penna falou em nome do projeto Transição Verde da Indústria (TVI), parceria do CGEE com a ABDE e o Institute for Manufacturing (IfM) da Universidade de Cambridge, com apoio da Open Society Foundations. Na trilha dedicada aos mecanismos de financiamento, o projeto aplicou um questionário às 35 instituições do Sistema Nacional de Fomento (SNF), das quais 21 responderam. Segundo o diretor, 16 delas já têm compromisso formal com a transição verde, em política institucional ou no próprio estatuto, e 15 avaliam como baixa ou muito baixa a sua capacidade técnica de estruturar projetos de descarbonização industrial.
“A direção está dada. O fomento brasileiro já decidiu que quer financiar essa transição. A agenda que nos reúne hoje mora entre esses dois números”, afirmou Penna.
Intenção e capacidade
Para o diretor do CGEE, a distância entre a intenção e a capacidade efetiva aparece em três frentes: nos instrumentos, ainda concentrados no crédito com condições diferenciadas e nas linhas de repasse; nas capacidades internas para avaliar tecnologias, estruturar projetos e medir resultados; e no alcance setorial, com apoio mais frequente à energia renovável e à eficiência energética do que a segmentos como aço, cimento e química.
Penna destacou o apoio não financeiro, como assistência técnica, preparação de projetos, diagnóstico e formação, como a área em que o sistema mais pode avançar. Quase metade das instituições que responderam ao questionário não oferece hoje esse tipo de apoio. “Em boa parte dos casos, o recurso existe, e o que falta é projeto bem estruturado do outro lado do balcão. Um banco que ajuda a estruturar projetos forma a própria carteira”, disse.
Mapa do Caminho e segurança
O diretor relacionou a agenda ao Mapa do Caminho para a transição para longe dos combustíveis fósseis, apresentado pela Presidência brasileira da COP30 no dia 3 de novembro, com horizonte em 2033. “Entre o que o mapa pede está alinhar incentivos fiscais, gasto público e sinais de mercado à transição. No Brasil, quem faz esse alinhamento na ponta, no território, junto à empresa que precisa trocar um forno ou uma rota tecnológica, é o Sistema Nacional de Fomento. A implementação desse mapa passa por esta sala”, afirmou.
Diante da reorientação dos orçamentos dos países centrais para a defesa, Penna lembrou que o Proálcool, financiado por BNDES, Banco do Brasil, BNB e Basa, nasceu em 1975 como resposta de segurança energética ao choque do petróleo e se tornou a experiência de política industrial verde mais bem-sucedida do país. “Segurança, hoje, é matriz energética própria, cadeias de minerais críticos que agreguem valor aqui e uma economia capaz de resistir ao clima que já mudou.”
Próximos passos
Os resultados do questionário foram detalhados por Marcos Arcuri, do CGEE, no painel dedicado ao TVI, ao lado de Mateus Labrunie (Cambridge Industrial Innovation Policy) e Marília Gabriela Elias da Silva (Observatório da Indústria/Findes). Penna indicou a intenção de dar continuidade ao trabalho em uma nova fase do projeto. “Esta primeira fase produziu o diagnóstico. Nossa expectativa, com a ABDE e com Cambridge, é dar continuidade a esse trabalho, voltado para a capacitação das instituições do sistema e para um exercício de aprendizagem mútua, entre as próprias IFDs brasileiras e com pares internacionais”, afirmou.
Sobre o TVI
O projeto Transição Verde da Indústria (TVI) é uma parceria entre o CGEE, a ABDE e o Institute for Manufacturing (IfM) da Universidade de Cambridge, com apoio da Open Society Foundations. O projeto se organiza em duas trilhas, uma dedicada a mecanismos inovadores de financiamento e outra ao potencial da bioeconomia, e investiga o papel das instituições financeiras de desenvolvimento na industrialização verde do Brasil.
Acesse a transmissão completa em: https://www.youtube.com/live/6n7nZnXJ45o?is=jtiuvSNE4_eyKN4r