Divulgação científica

A infraestrutura invisível do Brasil

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“Porque ciência, universidades e pesquisadores são ativos estratégicos para a soberania e o desenvolvimento nacional”, comenta Anderson S. L. Gomes, professor titular na UFPE e presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE).

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Quando pensamos na infraestrutura de um país, imaginamos imediatamente rodovias, portos, aeroportos, ferrovias, usinas e linhas de transmissão. Essas obras são visíveis, ocupam o território e frequentemente simbolizam a capacidade de investimento do Estado. Existe, porém, uma infraestrutura muito menos visível, mas igualmente essencial para o desenvolvimento nacional. Ela é formada pelas universidades, institutos de pesquisa, laboratórios, agências de fomento, equipamentos científicos e, sobretudo, pelas pessoas que produzem conhecimento. É essa infraestrutura que permite a um país compreender problemas complexos, desenvolver tecnologias, formar talentos e construir soluções para seus próprios desafios. Ao contrário de uma estrada ou de uma ponte, essa infraestrutura não pode ser construída rapidamente. Ela exige continuidade, planejamento e décadas de investimento. Mas pode ser fragilizada em poucos anos pela descontinuidade de políticas públicas, pela instabilidade do financiamento ou pela perda de talentos. Durante muito tempo acreditou-se que investir em ciência era uma consequência natural do desenvolvimento econômico. Hoje sabemos que ocorre exatamente o contrário.

Em um mundo marcado pela competição tecnológica, pela inteligência artificial, pela corrida dos semicondutores, pela transição energética, pela biotecnologia e pela disputa em torno de minerais críticos, produzir conhecimento tornou-se uma das principais fontes de poder das nações. A questão estratégica já não é apenas quem possui recursos naturais ou capacidade industrial. É quem domina o conhecimento necessário para transformar esses recursos em inovação, competitividade e bem-estar. Essa mudança de perspectiva aparece claramente em temas que o Brasil vem discutindo com intensidade, como as terras raras.

O verdadeiro valor estratégico desses minerais não está simplesmente na sua extração. Está na capacidade científica, tecnológica e industrial de transformá-los em ímãs permanentes, motores elétricos, equipamentos médicos, sistemas de defesa e inúmeras outras aplicações de alto valor agregado. O mesmo raciocínio vale para semicondutores, biotecnologia, computação avançada e inteligência artificial. Nesse contexto, universidades e institutos de pesquisa deixam de ser apenas espaços de produção acadêmica. Passam a integrar a infraestrutura estratégica do país. Talvez este seja um dos pontos mais importantes para o debate público brasileiro. Costumamos reconhecer facilmente a importância de uma rodovia ou de uma hidrelétrica para o desenvolvimento. Ainda temos dificuldade, entretanto, de enxergar um laboratório, um programa de pós-graduação ou uma agência de fomento como parte da mesma lógica de infraestrutura nacional. Essa visão precisa mudar.

Nenhum país que hoje lidera a fronteira tecnológica construiu sua capacidade científica de maneira descontínua. Os resultados observados atualmente são consequência de políticas persistentes, mantidas ao longo de décadas, frequentemente atravessando diferentes governos e conjunturas econômicas. Por isso, o principal desafio talvez não seja apenas ampliar os investimentos em ciência. É garantir sua continuidade. A pesquisa científica trabalha com horizontes de cinco, dez ou quinze anos. A formação de um pesquisador exige ainda mais tempo.

A construção de um laboratório de excelência é resultado de sucessivas gerações de investimento. Entretanto, os ciclos orçamentários e as incertezas frequentemente dificultam esse planejamento de longo prazo. O mesmo vale para as carreiras científicas. Atrair jovens talentosos para a pesquisa depende não apenas de vocação, mas também da existência de perspectivas profissionais, estabilidade institucional e reconhecimento social. Quando essas condições se enfraquecem, os efeitos não aparecem imediatamente. Tornam-se visíveis anos depois, quando o país percebe que perdeu competências estratégicas cuja reconstrução levará muito tempo. É exatamente por isso que ciência precisa ser tratada como política de Estado, e não apenas como política de governo. Nos últimos anos, iniciativas como a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) e o novo Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação (PACTI) que inicia sua elaboração para o próximo quinquênio representam avanços importantes ao buscar estabelecer diretrizes de longo prazo para o sistema nacional de CT&I. Mais do que programas específicos, esses instrumentos expressam uma visão de continuidade, indispensável para um ambiente em que conhecimento, inovação e desenvolvimento caminham juntos.

A sociedade brasileira frequentemente pergunta quanto custa investir em ciência. Talvez a pergunta mais importante seja outra: quanto custa deixar de construir capacidade científica? Os países não se tornam soberanos apenas porque enfrentam bem uma crise. Tornam-se soberanos porque, muito antes dela, decidiram investir continuamente na formação de pessoas, na produção de conhecimento e na construção de instituições capazes de antecipar desafios e criar soluções. Essa é a infraestrutura invisível que sustenta o futuro.

Financiar ciência, portanto, não significa apenas apoiar pesquisadores ou manter laboratórios em funcionamento. Significa construir a capacidade do Brasil de compreender o mundo, desenvolver tecnologias próprias, tomar decisões com autonomia e definir, com liberdade, seu próprio caminho de desenvolvimento. No século XXI, talvez não exista investimento mais estratégico do que esse.

 

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